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Chapter 8: O Livro-Razão Negro

Elias consegue o Livro-Razão Negro, mas é encurralado por Helena Siqueira em seu escritório. Ela revela que comprou suas dívidas pessoais, transformando sua posição de investigador em um peão sob controle administrativo, enquanto a segurança se aproxima.

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O Livro-Razão Negro

O ar no escritório da Dra. Helena Siqueira era rarefeito, impregnado com o cheiro de ozônio dos servidores e o perfume floral caro da diretora, uma fragrância que parecia zombar da umidade que subia dos corredores deste hospital. Elias Viana estava agachado sobre a mesa de mogno, o Livro-Razão Negro aberto sob a luz de emergência que pulsava em um azul doentio. Dez horas e trinta minutos. Esse era o tempo que restava até que o servidor central purgasse os logs digitais, apagando qualquer rastro da rede de corrupção que ele tentava expor.

Elias folheou as páginas com dedos trêmulos. O papel era denso, encadernado em couro sintético escuro, contendo mais do que registros médicos: era um inventário de descartáveis. Ao lado de cada entrada — nomes, datas, números de prontuário — havia um código de três letras que Elias reconhecia dos relatórios de custo do hospital. Cada sigla era uma sentença de morte assinada em nome da solvência institucional. O flash do celular descartável iluminou a página de setembro. A respiração de Elias engasgou quando seus olhos pararam em um nome familiar: Sebastião Ramos. O vizinho de sua infância, o homem que lhe ensinara a consertar rádios, não morrera de complicações cardíacas. O livro indicava uma intervenção cirúrgica não autorizada, realizada às três da manhã por uma equipe fantasma. A investigação burocrática transformou-se, em um segundo, em uma vingança pessoal.

Ele precisava de provas. O celular, com a bateria em 15%, tornou-se sua única arma. Clique. A câmera registrou a página. A bateria caiu para 12%. O som do obturador, embora abafado, pareceu um trovão no silêncio claustrofóbico. Elias folheou freneticamente, ignorando o suor frio que escorria por sua espinha enquanto buscava a assinatura do Diretor Mendes. Clique. 9%. O volume de dados era esmagador; cada linha era uma vida subtraída, uma conta paga com o sangue de pacientes pobres. Ele não conseguiria fotografar tudo, mas precisava da conexão direta com o topo da pirâmide.

O estalo da tranca eletrônica ecoou pelo escritório como um tiro. Elias sentiu o peso do livro contra o peito, a borda da capa perfurando sua palma. A porta estava selada. Ele estava encurralado, com dez horas e vinte minutos restantes antes que o sistema de logs apagasse a evidência de sua entrada.

Helena Siqueira entrou com a elegância de quem caminha para uma execução protocolar. Parou a dois metros de distância, a luz azulada dos monitores refletindo em seus óculos sem armação. Ela não olhou para o cofre aberto, mas diretamente para os olhos de Elias.

— Você é um homem de números, Elias. Deveria saber que, quando o passivo supera o ativo, a falência é inevitável — disse ela, a voz desprovida de qualquer emoção que não fosse um desdém clínico.

Elias apertou o livro, sentindo a borda afiada da capa perfurar sua palma.

— Eu sei o que tem aqui, Helena. Nomes, datas, mortes que vocês chamaram de falha técnica. O hospital não é um ecossistema, é um matadouro.

Helena soltou um riso curto, um som seco que não alcançou seus olhos. Ela deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dele.

— Você fala de ética como se pudesse pagar o preço dela. Vamos falar de dívidas reais. Acha que não sabemos do seu empréstimo pessoal com os credores da zona sul? Aqueles que não aceitam pedidos de desculpas? — Ela inclinou a cabeça, um sorriso gélido surgindo. — Eu comprei sua dívida, Elias. Tecnicamente, você não é mais um investigador. Você é um funcionário sob controle administrativo total.

Elias sentiu o chão oscilar. A armadilha não era apenas física; era financeira, social, absoluta. Ele recuou, mas suas costas encontraram a parede fria. O alarme de incêndio que ele sabotara no corredor ainda ecoava, mas a segurança já estava a caminho, alertada pela própria Helena. Com a porta bloqueada e o relógio da purga avançando, Elias percebeu que a única forma de sair dali era através da violência. Na penumbra, ele se preparou para o impacto, sabendo que, se fosse preso agora, o livro seria incinerado antes do amanhecer.

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