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Chapter 7: O Relógio de Helena

Elias infiltra-se no escritório de Helena Siqueira durante uma queda de energia e recupera o Livro-Razão Negro, confirmando a corrupção institucional. Helena o surpreende no ato, selando a porta e confrontando-o, enquanto o relógio da purga digital continua a contagem regressiva.

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O Relógio de Helena

O visor digital no pulso de Elias pulsava em vermelho: 10:42:00. O tempo não era uma abstração; era a velocidade com que a infraestrutura do Santa Cecília apagava os rastros de seus crimes. Ele estava agachado atrás de uma coluna de mármore na antecâmara da diretoria, o ar saturado pelo cheiro de chuva que invadia o hospital através das janelas mal vedadas e o odor clínico de desinfetante barato.

Através do vidro fosco, a silhueta da Dra. Helena Siqueira era uma geometria de poder. Ela não estava apenas trabalhando; estava executando uma purga. A luz azul dos monitores esculpia seu rosto, transformando-a em uma estátua de frieza enquanto ela manuseava o Livro-Razão Negro — um volume de couro sintético que continha a contabilidade de vidas descartadas.

— O paciente do leito 402 já foi contabilizado como perda operacional — a voz de Helena atravessou o vidro, metálica e desprovida de humanidade. — Os investidores não aceitam margens menores. Se o custo de manutenção excede a apólice, a disposição final é a única via lógica. Ajuste o prontuário. O óbito deve parecer um colapso sistêmico natural.

Elias sentiu o estômago contrair. Não era apenas negligência; era uma engrenagem financeira onde pacientes eram ativos depreciáveis. O alarme de incêndio que ele disparara no subsolo ainda ecoava em sua mente, um sacrifício necessário que lhe custara o acesso digital, mas lhe dera a chance física de estar ali.

Um trovão sacudiu o edifício, e as luzes do andar oscilaram antes de morrerem. A escuridão foi a sua deixa. Elias moveu-se com a precisão de quem não tem mais nada a perder. Ele entrou no escritório, o ar ali era denso, carregado de perfume caro e segredos. O cofre estava atrás da estante de mogno. Ele inseriu a chave de bypass que subtraíra da manutenção. O metal rangeu — um som que, no silêncio do hospital, soou como um tiro. O cofre cedeu.

Ao tocar o Livro-Razão, Elias sentiu o peso da evidência. Não eram apenas números; eram nomes, datas e valores de mercado. Ele folheou as páginas: cada entrada era uma sentença de morte assinada. Ele não estava apenas roubando um livro; estava desenterrando um cemitério institucional.

O som de saltos finos no mármore interrompeu sua leitura. Helena voltava. Elias tentou fechar o cofre, mas o mecanismo travou, emitindo um bipe agudo que cortou o silêncio. Ele se pressionou contra a mesa, o suor frio escorrendo pela nuca. A porta se abriu. A silhueta de Helena surgiu contra a luz alaranjada do corredor de emergência.

Ela não chamou a segurança. Ela caminhou até a mesa, parando a centímetros de Elias, que permanecia imóvel na penumbra. Ela sabia. Ela sempre soube.

— Elias — a voz dela era uma lâmina. — Você acha que está salvando vidas, mas está apenas destruindo a única estrutura que mantém esta cidade funcionando. O que você tem nas mãos não é justiça. É o fim da sua carreira. E, possivelmente, da sua vida.

Ela acendeu a luminária de mesa. A luz revelou Elias, ofegante, com o livro aberto. O relógio na parede marcava 10:30:00. Helena deu um passo à frente e trancou a porta com um movimento deliberado. O som da trava ecoou como uma sentença.

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