A Última Conexão
O subsolo do Santa Cecília não cheirava a hospital; cheirava a ozônio e a poeira de décadas. Elias Viana pressionou a palma da mão contra a costela, sentindo o sangue morno encharcar a camisa. Cada respiração era uma facada, mas o cronômetro no visor do seu pulso — um dispositivo que ele mesmo hackeara para monitorar a purga — não lhe dava trégua: 03:59:12. Quatro horas para que sua existência civil fosse deletada e o livro-razão, sua única arma contra Otávio Mendes, se tornasse um amontoado de papel sem valor.
— É aqui — Beatriz Lins sussurrou, a voz cortante pela exaustão. Ela apontou a lanterna para um terminal analógico, uma relíquia de baquelite e fios expostos que o sistema central, focado em firewalls digitais, ignorara por pura arrogância.
Elias não respondeu. Ele se arrastou até o console, os dedos trêmulos conectando o modem portátil. O sistema operacional, uma tela âmbar que piscava como um olho doente, respondeu ao comando. O upload começou. A barra de progresso rastejava, um fio de esperança pendurado sobre o abismo.
— Beatriz, preciso de estabilidade — Elias disse, os olhos fixos na tela. — Se essa conexão cair, o rastro do que fizeram com Heitor Mendes desaparece. Eles não estão apenas apagando arquivos; estão apagando pessoas. Minha credencial já foi revogada. Se nos encontrarem, não haverá delegacia. Seremos apenas resíduo hospitalar.
Beatriz bloqueou a porta de metal com uma estante de arquivos pesada. O guincho do metal contra o cimento soou como um tiro. Ela se virou, o rosto pálido sob a luz bruxuleante.
— Você não entende, Elias. Otávio não é apenas um diretor. Ele é um paciente terminal que financia sua própria sobrevida com cobaias humanas. Heitor era apenas a ponta do iceberg. A polícia que está vindo não é para nos prender; eles estão na folha de pagamento do conselho. Eles vêm para incinerar tudo.
O upload atingiu 30%. O som de botas táticas ecoou pelo corredor, um ritmo pesado e implacável. Elias ativou um alerta falso no painel de risco biológico do setor. Sirenes abafadas começaram a uivar, e as portas de contenção se fecharam com um estrondo pneumático, criando uma barreira temporária de aço.
— Eles estão aqui — Beatriz murmurou, encostando-se à porta enquanto o impacto de um aríete fazia o metal vibrar. — Eles não vieram para interrogar. Vieram para apagar o que resta de nós.
Elias sentiu o suor frio escorrer pela nuca. O upload saltou para 50%. A porta de aço cedeu sob o segundo impacto, rangendo como uma fera ferida. Beatriz posicionou-se na linha de frente, o corpo tenso, pronta para oferecer o tempo que Elias precisava. O ar na sala tornou-se rarefeito, carregado com a eletricidade do desespero. O monitor âmbar piscava, insistente, enquanto o chiado da linha analógica parecia uma respiração agonizante. A porta explodiu em uma chuva de faíscas e detritos, e as botas táticas da polícia invadiram o recinto. O upload estava travado em 50%, e a vida de Beatriz estava por um fio.