Protocolo de Limpeza Total
O ar no subsolo do Santa Cecília tinha gosto de ozônio e poeira de servidor. Elias Viana pressionou a mão contra o ferimento na costela, sentindo o sangue morno encharcar a camisa enquanto seus dedos tremiam sobre o terminal. O cursor piscava, um ritmo cardíaco artificial que ele precisava parar.
Ao inserir a chave física, a tela brilhou em vermelho: ACESSO NEGADO: USUÁRIO INEXISTENTE.
— O quê? — sibilou Elias. Ele tentou a credencial de auditor. O sistema respondeu com uma velocidade cruel: ERRO 404: IDENTIDADE NÃO ENCONTRADA. Sua foto funcional desaparecera. Seu nome, Elias Viana, estava sendo substituído por sequências de zeros. O protocolo de limpeza, disparado por Otávio Mendes, não estava apenas revogando seu acesso; estava dissolvendo sua existência civil. Contas bancárias, CPF, histórico de residência — tudo sendo apagado. Ele era um fantasma com menos de doze horas de validade antes que a purga atingisse os backups físicos.
O alerta sonoro de evacuação da Ala Leste ecoou pelos corredores, uma caçada disfarçada de protocolo. Elias colou as costas contra a parede fria enquanto a multidão de pacientes e familiares em pânico criava um nevoeiro de confusão.
— Identificação, senhor! — gritou um segurança a dez metros, o tablet em mãos exibindo o alerta de intruso.
Elias apertou o envelope pardo contra o peito. O livro-razão era sua única âncora de realidade. Ele se misturou a uma maca de transporte, sacrificando seu casaco ao deixá-lo cair sobre um carrinho de descarte, tornando-se apenas mais uma sombra no caos.
Na escadaria de emergência, Beatriz o esperava, as mãos trêmulas sob o jaleco.
— Eles ativaram a purga física, Elias. Se te encontrarem, o prontuário de Heitor Mendes e você serão incinerados juntos — ela sussurrou, os olhos varrendo o vão. — O conselho não vai parar.
Ela rabiscou um mapa em um formulário de triagem: uma antiga linha de transmissão analógica, isolada da rede corporativa do hospital.
— É o único caminho. Não passa pelos servidores deles.
Beatriz foi interrompida por um alto-falante chamando seu nome. Ela fugiu, deixando-o com o rascunho e o peso do segredo. Elias desceu ao subsolo, onde um monstro de metal dos anos 90 aguardava. Ele conectou o dispositivo de upload. A barra de progresso avançava como um caracol sob a chuva de São Paulo. De repente, o sistema reescreveu sua matrícula: Elias Viana nunca existira para o Santa Cecília. Ele olhou para a tela. 50% concluído. O som de botas pesadas ecoou no corredor de concreto. A porta da sala de manutenção foi chutada, mas ele não parou. Ele era um fantasma, e fantasmas não tinham nada a perder, exceto a verdade que estava prestes a ser enviada ao mundo.