O Custo da Verdade
O ar na ala de terapia intensiva do Santa Cecília não era mais de hospital; era de bunker. O alarme de incêndio, um uivo contínuo e estridente, cortava a névoa química que o sistema de supressão despejava nos corredores. Elias Viana pressionou a palma da mão contra a costela ferida. O sangue, quente e espesso, colava a camisa à pele. Ele tinha exatamente doze horas antes que o protocolo de purga, agora em execução acelerada, apagasse não apenas os logs de Heitor Mendes, mas a própria existência de Elias no banco de dados central.
Ele não podia recuar. O livro-razão, um volume pesado e frio dentro de sua jaqueta, era a única coisa que impedia sua execução sumária.
— Elias, pare! — A voz de Beatriz Lins surgiu por trás de um carrinho de emergência. Ela estava pálida, os olhos injetados de terror. — Se te pegarem perto do leito do Diretor, eles não vão te prender. Eles vão te descartar como lixo hospitalar. A segurança recebeu ordens de atirar.
— Eles já me descartaram, Beatriz — Elias sibilou, a voz falhando. Ele deslizou um dispositivo de interferência sob o painel de controle do leito 402. O caos ao redor era sua única cobertura. — Se eu não conseguir a biometria de Otávio, esse livro é só papel queimado. Onde ele está?
Beatriz hesitou, o conflito estampando seu rosto. A família dela, mantida como refém pelo conselho, era o peso que a mantinha acorrentada ao sistema.
— Ala VIP. Quarto 402. Ele está sendo mantido em suporte de vida, Elias. Ele não é o predador que você pensa; ele é o paciente zero.
Elias não esperou. Ele avançou, ignorando a pontada lancinante no flanco. O corredor era um labirinto de luzes estroboscópicas e fumaça. Ao dobrar a esquina da ala VIP, ele viu Otávio Mendes. O Diretor, outrora a face da excelência corporativa, estava encolhido em uma poltrona reclinável, conectado a um terminal privado. Ele parecia um espectro, a pele translúcida, os dedos trêmulos digitando comandos frenéticos.
Elias saltou, a adrenalina suplantando a dor. Ele imobilizou o braço de Otávio, forçando-o contra o vidro blindado do terminal.
— A digital, Otávio. Agora — Elias pressionou a ponta de um bisturi contra a jugular do homem.
Otávio não lutou. Um riso seco e desprovido de vida escapou de seus lábios. Ele pressionou o dedo contra o leitor biométrico. O sistema autorizou o acesso com um brilho esverdeado, revelando não apenas os logs de Heitor Mendes, mas o prontuário do próprio Diretor.
Elias desviou o olhar para a tela. O sangue gelou. Otávio Mendes era um paciente terminal, mantido vivo apenas pelos recursos experimentais que ele protegia com tanto sangue. A corrupção não era ganância; era um pacto de sobrevivência. Ele vendia a vida de pacientes pobres para financiar os tratamentos que mantinham seu próprio coração batendo.
— Você acha que é o herói, Viana? — Otávio sussurrou, a voz fraca enquanto desabava. — Eu sou apenas o primeiro a cair. Se eu morrer, o conselho apaga tudo. Inclusive você.
Antes que Elias pudesse reagir, o terminal emitiu um sinal de erro crítico. O protocolo de limpeza, acionado pela violação de acesso, começou a rodar silenciosamente. Na tela, o nome de Elias Viana apareceu em vermelho, seguido por uma barra de progresso: Apagando registro de identidade.
Ele não era mais um auditor. Ele estava se tornando um fantasma.