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Chapter 10: O Cerco Final

Elias e Beatriz são encurralados no subsolo por seguranças. Durante o confronto, Beatriz é ferida ao proteger o terminal de upload, que trava em 90%. Otávio Mendes entra em cena, oferecendo a Elias um dilema moral: o silêncio em troca da vida de Beatriz.

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O Cerco Final

O zumbido do servidor analógico no subsolo do Santa Cecília era o som de uma sentença sendo executada. Elias Viana observava a tela de fósforo verde: 58%. O ar no porão estava saturado com o cheiro de ozônio e poeira, mas era o som metálico vindo do corredor que acelerava seu pulso. A chuva de São Paulo, implacável contra as grades de ventilação, parecia abafar o mundo lá fora, isolando-os em uma câmara de pressão onde o tempo era a única moeda que ele não podia mais gastar.

— Eles estão no corredor principal — a voz de Beatriz Lins cortou o silêncio. Ela não era mais a médica impecável dos corredores; seus olhos estavam injetados de adrenalina e medo. Ela mantinha o corpo contra a porta blindada, os dedos brancos de tanto apertar o ferrolho improvisado. — O sistema de gestão detectou o desvio de carga. Eles sabem exatamente onde estamos, Elias. Eles não vão deixar isso sair.

Elias não respondeu. Seus dedos, manchados pela graxa dos cabos antigos, dançavam sobre o teclado mecânico. Ele era um auditor hospitalar que, vinte e quatro horas atrás, possuía uma carreira e uma identidade. Agora, era um erro de sistema, um fantasma marcado para exclusão. O upload subiu para 65%. Cada segundo de transmissão custava-lhe a própria segurança, mas ele não podia parar. Se a conexão caísse, o prontuário adulterado de Heitor Mendes — a prova do choque anafilático induzido — seria apagado no próximo ciclo de purga. A verdade morreria com o paciente.

Um estrondo violento sacudiu a porta. O metal gemeu, cedendo milímetros sob a pressão de um aríete.

— Beatriz, afaste-se — ordenou Elias, sem desviar os olhos da tela.

Ele agarrou o extintor de incêndio da parede. Quando a tranca cedeu, estilhaçando o ferrolho, Elias disparou o jato de pó químico. Uma nuvem branca e densa preencheu a entrada, cegando os invasores. Ele ouviu o som de botas táticas no concreto e tossidos abafados. O confronto não era mais uma investigação; era uma guerra de extermínio.

Beatriz não recuou. Ela se posicionou entre Elias e o terminal, segurando uma barra de ferro. Quando a névoa começou a baixar, a silhueta de um segurança surgiu, a arma em punho não apontada para Elias, mas para o servidor.

— Não! — gritou Beatriz, lançando-se sobre o terminal.

O disparo ecoou no subsolo, um som seco e definitivo. Beatriz caiu, a mão pressionando o ombro atingido, o sangue escuro manchando seu jaleco. O monitor piscou. O upload travou em 90%.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Os seguranças recuaram, abrindo caminho. Otávio Mendes, o Diretor do Santa Cecília, entrou na sala. Seu terno estava impecável, um contraste obsceno com a sujeira industrial e o sangue de Beatriz no chão. Ele observou a médica caída e depois fixou os olhos em Elias, que mantinha as mãos trêmulas sobre o teclado, o cursor parado no limite da transmissão.

— Você chegou longe, Elias — disse Otávio, a voz calma, quase paternal. — Mas a verdade é um luxo que este hospital não pode pagar. Se você concluir esse envio, a polícia entra aqui e não haverá sobreviventes. Se você desligar agora, eu garanto a vida dela e um novo começo para você. O que vale mais? A sua redenção ou a vida da única pessoa que ainda confia em você?

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