Traição sob a Chuva
A chuva de São Paulo não lavava nada; apenas transformava a fuligem das avenidas em uma pasta oleosa que subia pelas calças de Elias, pesando como o chumbo de uma sentença. Ele estava encurralado no estacionamento subterrâneo do Hospital Santa Cecília, o ar carregado de monóxido de carbono e desespero. O dispositivo de rastreamento — um chip minúsculo colado à contracapa do prontuário de Heitor Mendes — emitia um brilho âmbar intermitente no escuro, um olho eletrônico que nunca piscava. Com um movimento seco, Elias arrancou o adesivo e o esmagou sob a bota. O som do plástico estalando contra o concreto foi o selo de sua nova realidade: ele estava cego, sem credenciais e oficialmente caçado.
O celular descartável vibrou. Uma mensagem de Beatriz: Eles têm o endereço da minha mãe. Não tenho escolha. Corra.
O relógio em seu pulso, um lembrete cruel de sua obsolescência, mudou os dígitos: 24:00:00. O prazo original de 48 horas era uma ilusão, uma cortina de fumaça que Otávio Mendes acabara de rasgar. Elias não podia mais apenas fugir; ele precisava resgatar a aliada para obter a prova final.
Ele encontrou Beatriz no nível -2, um labirinto de concreto e umidade. Ela tremia, o jaleco branco destoando da penumbra. Quando Elias a puxou para trás de uma coluna, ela soltou um arquejo, os olhos arregalados pela falta de sono.
— Você me seguiu — sussurrou ela, a voz quebrada. — Eles vão matar meu irmão, Elias. Você não entende o que Otávio é capaz de fazer.
— Eu sei o que ele faz. Eu vi o rastreador — Elias retrucou, cortante. — Mas o relógio mudou. Eles anteciparam a purga. Eles não querem apenas me apagar, querem apagar você também assim que não for mais útil.
Beatriz estacou. O medo em seus olhos transformou-se em uma clareza desesperada. Ela estendeu a mão, revelando uma chave física de acesso ao servidor central.
— Otávio não é o topo — ela confessou, a voz quase um sussurro. — Ele responde a um conselho de investidores. A purga não é um erro, é a limpeza de uma operação sistêmica. Se você quer a verdade, a chave está aqui. Mas eles estão vindo.
O som de passos pesados ecoou pelo subsolo. Mercenários, não seguranças. Elias forçou a chave para o bolso, sentindo o peso da responsabilidade. Ele arrastou Beatriz para a área de manutenção, chutando o painel principal. O alarme de incêndio disparou, o som ensurdecedor ecoando pelo concreto enquanto os sprinklers explodiam em névoa gelada. No caos, ele despistou os perseguidores, mas o custo foi alto: um corte profundo na costela, aberto durante a fuga pelas tubulações.
Elias emergiu na rua, encharcado e sangrando. De longe, observou o hospital imponente. O celular vibrou novamente. Uma foto da filha de Beatriz, entrando em um carro preto. A legenda dizia: O tempo é um luxo, Elias. O dela está acabando.
O relógio marcou 24 horas. Otávio Mendes sabia onde a família de Beatriz morava. O tempo não era mais apenas para Elias; era uma contagem regressiva para a aniquilação de tudo o que restava de sua humanidade. Ele olhou para a entrada principal, sabendo que a única forma de salvar aquela criança era invadir o escritório de Otávio antes que o servidor fosse limpo para sempre.