Rastro de Sangue Digital
O relógio do sistema no canto da tela piscava em vermelho: 40:14:00. Quarenta horas e quatorze minutos para a purga total dos logs do Hospital Santa Helena. Elias Viana sentiu o suor frio escorrer pela nuca enquanto o cursor do terminal, em um café de internet decrépito na Rua Augusta, movia-se sozinho. Ele não estava apenas lendo o prontuário de Heitor Mendes; ele estava sendo lido.
O arquivo, entregue por Beatriz Lins, era um cavalo de Troia. O script de rastreamento, assinado digitalmente pela diretoria, transmitia sua localização exata e um feed de áudio em tempo real para o servidor central do hospital. Elias tentou forçar o encerramento do processo, mas o teclado mecânico respondeu com um bloqueio rígido. O sistema não apenas o rastreava; ele o isolava.
— Droga, Beatriz... — sussurrou ele, a voz rouca pelo cansaço.
Ao acessar os metadados ocultos do arquivo, a verdade saltou da tela, crua e violenta. Não havia traição por ganância. Havia extorsão. O prontuário continha um anexo criptografado com fotos da filha de Beatriz, acompanhadas de uma ordem direta de Otávio Mendes: Entregue o auditor ou perca a família. A médica não era uma aliada, nem uma inimiga; era uma refém.
O som de um motor potente cortou o ruído da chuva lá fora. Elias olhou pela vitrine suja de fuligem. Um sedan preto, com vidros fumê, manobrou agressivamente sobre a calçada, bloqueando a saída. O motorista não desceu; ele apenas esperou, como um predador que conhece o terreno.
Elias não hesitou. Ele arrancou o pendrive, deixando o computador ligado com uma cópia corrompida do prontuário, e correu para os fundos. O beco cheirava a lixo acumulado e óleo diesel. Enquanto saltava sobre caixas de papelão, ele ouviu a porta da frente do café ser chutada. O tempo de reação era tudo o que lhe restava.
Ele emergiu na Rua do Arouche, misturando-se à multidão apressada que buscava abrigo no metrô. O sedan preto guinou, perseguindo a distração que ele deixara para trás, mas Elias sabia que era apenas uma questão de tempo. Ele desceu as escadas da Estação República, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado.
Sob a luz fluorescente do saguão, ele checou o relógio. O tempo havia saltado. O sistema, ao detectar a tentativa de extração, antecipara a purga. Vinte e quatro horas. O prazo não era mais uma estimativa; era uma sentença.
Elias parou diante de um mapa da cidade, a mente processando a nova realidade. Otávio Mendes não estava apenas limpando registros; ele estava caçando pessoas. A família de Beatriz era o próximo alvo, uma peça de xadrez que o Diretor sacrificaria sem hesitar para manter a fachada do hospital. Elias não tinha mais credenciais, não tinha carro e a confiança que depositara em Beatriz fora reduzida a cinzas. Mas, pela primeira vez, ele tinha um alvo claro. Ele não precisava apenas expor a verdade; ele precisava impedir que o sistema devorasse o que restava da vida daquela mulher. O relógio continuava sua contagem regressiva, impiedoso e exato.