A Fachada Desmorona
O Hangar do Setor-Sul cheirava a ozônio e desespero. Kaelen Viana encarava o Sucata, seu mecha, agora uma carcaça aberta sob a luz fria das lâmpadas de emergência. Faltavam 20 horas para a execução da dívida familiar. A Diretora Thorne não apenas iniciara uma auditoria técnica; ela havia selado os protocolos de ignição do núcleo.
— Não perca seu tempo, garoto — a voz de Beto 'Ferrugem' cortou o silêncio, vinda das sombras. — Thorne bloqueou o acesso remoto. Ela quer que você seja humilhado diante de toda a rede de transmissão da Academia. Se o Sucata não ligar, você não perde apenas o ranking; você perde a sua vida.
Kaelen ignorou o mentor. Seus dedos, calejados e trêmulos, tateavam os fios expostos do módulo de alta tensão proibido que ele instalara após o duelo com Valerius. O dispositivo pulsava, um coração artificial injetando energia instável no chassi. Thorne achava que o Sucata era apenas código. Ela estava errada.
Kaelen conectou seu sistema nervoso diretamente ao núcleo proibido. A dor foi um chicote de fogo subindo pelo braço esquerdo, roubando-lhe a sensibilidade, mas o mecha respondeu. O chassi rugiu, vibrando com uma frequência que desafiava os limitadores de segurança.
Horas depois, na Arena de Provas, o cronômetro no visor do Sucata marcava 19:42:15. O ambiente era de um luxo estéril, uma afronta à sujeira de seu mecha. Kaelen sentiu o atraso de três milissegundos nos controles — uma sabotagem deliberada de Thorne. Quando a prova começou, o joystick tornou-se inerte. O mecha, por vontade própria, começou a ajustar o ângulo de inclinação para o centro da arena, onde um oponente de elite, com blindagem espelhada, erguia um rifle de plasma.
— Kaelen, saia daí! — a voz de Beto chiou no comunicador. — O rastreador militar no núcleo é um detonador. É uma armadilha!
Kaelen não recuou. No momento em que o disparo de plasma cortou o ar, ele ativou a técnica de inércia. O Sucata girou num ângulo impossível, forçando o oponente a atingir a barreira de contenção. O público, antes silencioso, explodiu em murmúrios. A manobra era crua, proibida e inegavelmente eficaz.
Mas a vitória foi curta. O sistema de refrigeração disparou, forçando uma supercarga térmica. Thorne estava sequestrando o motor. A voz da Diretora invadiu o canal aberto da arena, fria como o vácuo:
— Você acha que é dono dessa máquina, Viana?
Kaelen mergulhou a mão sob o console, arrancando a tampa do módulo de interface. O calor era insuportável. Ele não lutou contra o sequestro; ele o usou. Segundos antes da detonação, Kaelen ejetou o núcleo de energia. A explosão resultante foi um clarão cegante que engoliu a arena. Enquanto as chamas lambiam os escombros do Sucata, Kaelen, já fora da cabine, acessou a rede de transmissão da Academia. Ele não estava apenas sobrevivendo; ele estava expondo o código da conspiração para cada tela do setor. A fachada de meritocracia desmoronou em rede nacional, mas enquanto o caos se instaurava, Kaelen percebeu que o sistema de segurança da arena já travava as saídas, prendendo-o entre os escombros e a guarda da Diretora.