O Cronômetro da Revolta
O ar na Arena de Provas tinha o gosto metálico de ozônio e isolamento queimado. Kaelen Viana arrastou-se para fora da cratera fumegante, seus pulmões ardendo a cada respiração. O Sucata não era mais do que uma carcaça inerte, uma pilha de ligas retorcidas que servira ao seu propósito final: ser a distração necessária para o que ele carregava no bolso interno do traje de voo.
Seus dedos, trêmulos pelo esforço da ejeção forçada e pela adrenalina, apertaram o dispositivo de armazenamento de dados. Acima dele, o sistema de som da Academia emitia uma estática ensurdecedora, intercalada com ordens de contenção. A Diretora Thorne não queria apenas silenciá-lo; ela precisava que ele desaparecesse antes que o público processasse o que acabara de ver nos telões.
— Unidade 7, alvo identificado no Setor de Destroços. Autorização para força letal concedida — a voz sintética ecoou pelo pátio, fria e desprovida de hesitação.
Kaelen ignorou a dor latejante na perna esquerda e correu. Ele não podia apenas fugir. Se a transmissão da arena fosse cortada agora, a verdade sobre a sabotagem remota morreria com ele. Ele alcançou um terminal de manutenção e conectou o dispositivo. O upload da telemetria começou: uma cascata de dados que provava, sem sombra de dúvida, que o sistema de controle do Sucata fora hackeado remotamente pela própria Diretora.
Enquanto a barra de progresso avançava, ele mergulhou nos corredores de serviço. O eco rítmico das botas táticas da segurança da Academia se aproximava. Eram 19 horas para a execução da dívida familiar, e cada segundo ali era uma aposta suicida.
— Bloqueiem as saídas de ventilação. Não permitam que ele alcance a rede pública — a ordem de um oficial soou, distante, mas clara.
Kaelen não respondeu. Ele arrancou um painel lateral, expondo um ninho de cabos de alta tensão. Com a precisão nascida das lições de Beto ‘Ferrugem’, ele conectou o dispositivo ao núcleo de energia, forçando uma sobrecarga. Um clarão cegante de faíscas inundou o corredor, fritando os sensores dos drones perseguidores e criando uma cortina de caos elétrico. No processo, ele viu nos dados algo mais: Thorne não era a única arquiteta. Ela estava sendo monitorada por uma facção obscura dentro da própria Academia. O jogo era muito maior.
A transmissão atingiu o ápice. Nos telões gigantes da arena, os dados da conspiração de detonação remota — a prova irrefutável de que a Academia usava alunos como cobaias — corriam em cascata, substituindo o placar oficial. O público nas arquibancadas, antes condicionado a aplaudir a meritocracia estéril, agora rugia. O som era um trovão metálico. Kaelen subiu em um pilar de manutenção, expondo-se sob a luz estroboscópica. Ele era o rosto daquela revolta. A guarda hesitou, seus rifles baixados diante da massa humana que começava a invadir o setor. Thorne gritou pelos alto-falantes que ele era um terrorista, mas a verdade já estava gravada nas retinas de milhares.
Horas depois, na umidade fétida da oficina de Beto, Kaelen sentia o peso do tempo. O silêncio era interrompido apenas pelo zumbido das patrulhas distantes. Beto jogou um terminal sobre a bancada, o brilho da tela iluminando seu rosto marcado.
— Você abriu uma ferida que a Thorne não vai conseguir costurar — disse o velho sucateiro.
— Eles vão me caçar até o último nível, Beto. O que eu tenho aqui ainda vale alguma coisa?
Beto apontou para os arquivos. — Isso não é apenas a prova da conspiração; são os projetos de uma nova interface. Ela ignora os limitadores de segurança que Thorne usa para controlar os alunos. É a peça que falta para o Sucata renascer como algo que eles não podem desligar.
Antes que Kaelen respondesse, a porta da oficina foi forçada. Não era a segurança da Academia, mas um grupo de pilotos das margens, rostos conhecidos das arquibancadas, todos segurando dispositivos de transmissão. Eles não vieram para capturá-lo; vieram para segui-lo. A escada da Academia acabara de se tornar um campo de batalha de uma guerra muito maior, e Kaelen era, contra todas as expectativas, o seu novo comandante.