O Duelo das Sombras
O ar no hangar cheirava a ozônio, óleo queimado e ao desespero metálico de uma máquina que se recusava a morrer. Kaelen Viana desceu da cabine do Sucata, as pernas tremendo sob o peso da adrenalina residual. O chassi do seu mecha, uma colcha de retalhos de ligas de baixa qualidade, estalava enquanto o metal se contraía no resfriamento forçado. À sua frente, o Vanguard de Valerius era uma carcaça inerte, o núcleo de energia exposto após o golpe de precisão que Kaelen desferira minutos antes.
— Você não deveria ter feito isso, Viana — a voz de Valerius, abafada pelo capacete, soou pelo canal aberto, carregada de um desprezo que mal conseguia esconder o choque. — Aquele motor é o que mantém este setor operacional. Você acabou de cavar sua própria cova.
Kaelen não respondeu. Ele não tinha fôlego para debates. Seus dedos, ainda rígidos pela interface neural, apertavam o data-pad que ele extraíra da porta de serviço do mecha do rival. Beto 'Ferrugem' surgiu das sombras, o rosto marcado pela fuligem e por uma amargura que, pela primeira vez, parecia ter cedido lugar a uma curiosidade perigosa. O mentor apontou para o cronômetro digital na parede do hangar: 20 horas para a execução da dívida familiar.
— Abra — murmurou Beto, a voz rouca. — Se isso for apenas lixo de elite, estamos mortos antes do amanhecer.
Kaelen conectou o dispositivo ao seu terminal portátil. A tela brilhou em um azul estéril, revelando fluxos de dados que não deveriam existir. Não eram apenas códigos de manutenção; eram logs de transferência de energia desviada, ordens de serviço assinadas diretamente pela Diretora Thorne e, mais importante, uma lista de alvos. O Sucata não era o único com um rastreador militar escondido. A elite da Academia estava usando os alunos como cobaias para testar sistemas de detonação remota em condições reais de combate.
O peso da descoberta atingiu Kaelen como um soco. A conspiração não era um boato de bastidores; era a própria estrutura da escada de poder. Ao aceitar o duelo, ele não tinha apenas ganho um motor; ele tinha roubado a prova definitiva da corrupção que mantinha a Academia no controle.
— Eles sabem que você tem isso — Beto alertou, olhando para a porta do hangar. — A auditoria da Thorne não era para checar peças. Era para localizar esses dados. Se você não usar isso agora, eles vão apagar você e o Sucata antes que o ranking oficial seja atualizado.
Kaelen olhou para o próprio mecha. O rastreador militar, agora isolado em um loop de dados falsos, emitia um pulso quase imperceptível. Ele precisava de mais do que peças; precisava de uma saída. Mas, ao olhar para a tela, um novo alerta surgiu: a próxima prova pública já estava programada para o amanhecer. Os controles do Sucata foram marcados com uma restrição de software externa. Thorne não esperaria o fim do prazo da dívida. Ela iria sabotar a prova para garantir que o Sucata sofresse uma falha catastrófica diante de todos.
Kaelen sentiu um frio na espinha. Ele havia subido um degrau na Escada, mas o degrau acima estava eletrificado. A prova pública que ele tanto buscou para se salvar estava se transformando em uma armadilha, um palco desenhado para sua destruição final. Ele olhou para o terminal, onde os dados de sabotagem de campo começaram a baixar automaticamente. Seus controles haviam sido alterados remotamente durante a última manutenção. A próxima luta não seria apenas por pontos; seria contra o próprio mecha que ele tentava salvar.