Sincronia Forçada
O cronômetro no visor do Sucata pulsava em um vermelho agressivo: 21 horas e 14 minutos para a execução da dívida familiar. Kaelen sentiu o gosto ferroso de sangue na boca enquanto a interface neural, sobrecarregada pelo módulo proibido, enviava espasmos de dor para suas têmporas. O mecha não era mais apenas uma máquina; era uma extensão nervosa que vibrava com uma fome elétrica, tentando processar o sinal fantasma que isolava o rastreador militar escondido em seu chassi.
— Se você não estabilizar o fluxo, o feedback vai fritar seu córtex antes mesmo de você sair do hangar — a voz de Beto 'Ferrugem' chiou pelo comunicador, carregada de um cinismo que mal escondia a preocupação. — Aquele rastreador é um parasita. Ele drena energia do núcleo e cobra o excedente em tecido cerebral. Não tente manobras de aceleração total, ou você vai virar purê.
Kaelen ignorou o aviso, focando na resposta hidráulica do Sucata. Ele forçou um passo lateral no campo de provas abandonado. O movimento foi fluido, desafiando a rigidez mecânica dos modelos padrão da Academia. Foi uma manobra perfeita, mas o custo foi imediato: um alerta de colapso térmico estourou em sua retina. O sistema de refrigeração estava no limite. Ele não tinha margem para erros.
Ao retornar ao hangar, o ar parecia mais denso. Valerius o aguardava no corredor, impecável, com o uniforme de elite contrastando com a graxa que manchava as mãos de Kaelen. O silêncio dos cadetes ao redor era uma sentença.
— O Sucata sobreviveu à auditoria da Thorne, Viana? — Valerius sorriu, um gesto que não alcançava seus olhos frios. — Impressionante. Mas a sorte é um recurso finito. Aposto o acesso aos meus dados de manutenção de elite contra o seu motor. Um duelo fora do ranking. Agora.
Kaelen sentiu o peso da aposta. Se perdesse, o Sucata seria desmantelado, e sua família seria despachada para os setores de mineração. Ele aceitou, vendo nos olhos de Valerius a tentativa de forçar sua destruição pública sob o olhar da Diretora Thorne, que observava do camarote superior com um desdém gélido.
Na arena, o ozônio queimava as narinas. O sinal de início soou como um tiro. Valerius avançou com a precisão de quem nunca precisou improvisar. O mecha do rival disparou uma rajada de supressão, forçando Kaelen a uma manobra de inércia proibida. O Sucata gemeu, as juntas protestando sob a carga, mas Kaelen forçou a conexão neural, sentindo o rastreador fantasma aquecer em seu peito como um detonador disfarçado. Ele não apenas esquivou; ele hackeou o link de dados do rival durante o movimento, uma manobra que desafiava a física da Academia.
O mecha de Valerius travou, o motor morrendo em um estalo metálico. O público silenciou, atônito. Kaelen viu a Diretora Thorne se inclinar para frente, o interesse dela transformando-se em uma ameaça concreta. Ele vencera, mas ao baixar a guarda, um fluxo de dados criptografados invadiu sua interface. O mecha de Valerius não era apenas uma máquina de combate; era um terminal de dados que revelava uma conspiração acadêmica muito maior do que ele imaginara. A caçada apenas começara.