Escada de Sangue e Aço
O ar no hangar da Academia era denso, saturado com o cheiro de ozônio e o suor frio de quem não tem margem para erro. Kaelen Viana observou o cronômetro digital projetado na parede: 22 horas e 14 minutos para a execução da dívida familiar. O 'Sucata', seu mecha de terceira mão, soltava um vapor sibilante pelo atuador esquerdo — um lembrete físico da manobra de inércia que o mantivera vivo na qualificação.
— O relatório de telemetria da sua última prova é um insulto à lógica, Viana — a voz de Elara Thorne cortou o silêncio. A Diretora caminhava entre as carcaças de metal com uma elegância predatória. Atrás dela, dois inspetores com scanners de alta precisão já mapeavam o perímetro. — Nenhuma máquina da série Sucata deveria atingir aquela aceleração. O sistema marca uma anomalia de voltagem que não deveria existir.
Kaelen limpou as mãos sujas de graxa em um trapo, sentindo o peso do olhar da Diretora. Se os scanners detectassem o módulo de alta tensão de Beto, a servidão de sua família nas minas seria imediata. Ele não podia recuar.
— É a configuração manual dos servomotores, Diretora. A sucata responde melhor quando não é limitada pelos protocolos de fábrica — Kaelen respondeu, mantendo a voz estável. Enquanto os inspetores se aproximavam, ele ativou discretamente um desvio de energia no terminal escondido. O sistema de refrigeração do mecha rugiu, criando uma interferência eletromagnética que fez as telas dos scanners oscilarem em erro.
Thorne estreitou os olhos. — Falha de hardware por superaquecimento — anunciou um dos inspetores, frustrado.
— Você tem sorte, Viana — Thorne disse, o tom desprovido de calor. — Mas a prova de ranking de bronze começa em dez minutos. Se o seu mecha falhar no campo, será descarte permanente. Não haverá segunda chance.
O rugido da multidão na arena de bronze era um som de desprezo misturado com expectativa de sangue. À sua frente, Valerius, o favorito da Academia, posicionou seu frame de elite. O modelo era impecável, polido como obsidiana, contrastando brutalmente com as soldas irregulares do Sucata.
— O lixo não sobe degraus, Viana — sibilou Valerius pelo canal aberto. — Você é apenas uma falha estatística que a Diretora vai apagar hoje.
Kaelen não respondeu. Seus dedos dançavam sobre os controles, sentindo a vibração instável do módulo de alta tensão. Valerius avançou, disparando rajadas de plasma que forçaram o Sucata a recuar. Um impacto atingiu o flanco, e o escudo de energia piscou e morreu. A plateia urrou.
Menos de 24 horas, Kaelen pensou, o desespero se transformando em uma frieza metálica. Ele forçou o braço direito do Sucata a girar num ângulo impossível, ativando a técnica proibida. O chassi gemeu, um som estridente de metal sobre metal que ecoou pelas arquibancadas. O punho do Sucata encontrou o peito do mecha de Valerius com uma força que ignorou a blindagem, arremessando o oponente contra a barreira de contenção. A plateia silenciou. O impacto foi inegável.
— O sistema de refrigeração colapsou — alertou a interface. Kaelen desceu do mecha sob escolta, o corpo tremendo de exaustão. Thorne o esperava, seus olhos fixos na carcaça fumegante.
— Você subiu ao ranking de bronze, Viana. Mas a auditoria técnica não acabou. Eu quero saber exatamente o que você fez com esse chassi.
Enquanto a Diretora se afastava, Kaelen mergulhou sob o chassi para uma inspeção rápida. Ao afastar uma placa de blindagem, seus dedos tocaram algo frio e estranho: um dispositivo de rastreamento militar, transmitindo sua localização para uma facção externa à Academia. O jogo era muito maior do que ele imaginava.