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Chapter 6: A Moeda da Confiança

Rafael arrisca sua posição na Viana Holding para proteger Beatriz de Menezes, devolvendo-lhe um item de valor sentimental. A tensão entre eles atinge um ponto de ebulição durante uma noite de tempestade, onde a vigilância de Rafael é confrontada pela necessidade de confiança mútua.

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A Moeda da Confiança

O escritório de Rafael na Viana Holding era uma redoma de vidro suspensa sobre o caos de São Paulo. Lá fora, a tempestade castigava a metrópole, mas dentro, o silêncio era tão denso que o zumbido dos servidores parecia um ruído branco. Beatriz mantinha a coluna ereta, o tablet sobre a mesa de mogno exibindo os metadados do dossiê que ela descobrira. O cursor piscava, um pulso eletrônico que parecia zombar da sua sensação de agência.

— Você não estava apenas protegendo o seu patrimônio — disse ela, a voz firme, embora o sangue pulsasse com força em suas têmporas. — Você estava mapeando cada passo meu, desde antes da falência do meu pai. Isso não é estratégia de negócios, Rafael. É vigilância.

Rafael não se moveu. Ele observava as luzes da cidade se dissolverem na chuva. Quando se virou, não havia o remorso que ela esperava, apenas uma calma absoluta, perigosa. Ele contornou a mesa, cada movimento milimetricamente calculado para reduzir o espaço entre eles até que Beatriz sentisse o calor irradiado por seu terno sob medida.

— O mundo não é um lugar gentil para mulheres como você, Beatriz. Especialmente quando o sobrenome Alencar se tornou um alvo — ele disse, a voz baixa, despida de qualquer polidez. — Eu não mapeava seus passos por obsessão, mas por necessidade. A sua e a minha. Seus movimentos eram variáveis de risco que eu precisava neutralizar antes que o mercado o fizesse.

— Não ouse usar a minha sobrevivência para justificar a sua invasão — retrucou ela, recuando apenas o suficiente para manter a mesa como barreira. — Eu sei o que você esconde. Eu sei que o meu pai está ligado ao segredo dos Viana.

Rafael não piscou. O jogo mudara; o contrato não era mais uma proteção, era uma armadilha que ambos precisavam gerir antes que o conselho administrativo, liderado por um Otávio Menezes cada vez mais audacioso, decidisse derrubá-los.

Na manhã seguinte, a sala de reuniões da Viana Holding cheirava a café forte e tensão estagnada. Menezes, com um sorriso de predador polido, pousou um tablet sobre a mesa.

— O contrato é um risco desnecessário, Rafael. A associação com os Alencar está afugentando os investidores. Se o casamento não for um ativo sólido, o conselho votará pela sua destituição.

Beatriz sentiu o olhar de Rafael sobre si. Era um convite silencioso para que ela entrasse no jogo. Sem hesitar, ela deslizou um relatório para o centro da mesa, detalhando as irregularidades que descobrira no setor de logística de Menezes.

— O senhor Menezes parece esquecer que a instabilidade atual não vem do meu sobrenome, mas de desvios que eu, pessoalmente, cataloguei nos últimos balanços — Beatriz afirmou, a voz cortante.

Rafael aproveitou a brecha. Sacrificando uma reserva de capital crítica da holding, ele neutralizou a ameaça de Menezes com uma manobra de liquidez que silenciou os demais conselheiros, mas deixou sua própria posição na presidência perigosamente exposta. O conselho foi silenciado, mas o olhar que Menezes lançou a Beatriz ao sair da sala não era de derrota, era de aviso.

No trajeto de volta, o silêncio no Rolls-Royce era opressor. Rafael mantinha as mãos sobre o volante, os nós dos dedos brancos.

— Você arriscou sua cadeira por mim — ela murmurou, a voz quase inaudível.

— Eu arrisquei o que era necessário para manter o ativo que eu escolhi — ele corrigiu, retirando um pequeno estojo de veludo azul-marinho do console. Ele o depositou no colo dela. Beatriz abriu a caixa e sentiu o ar escapar de seus pulmões. Era o broche de safira de sua mãe, a peça que ela fora forçada a vender em um leilão clandestino meses antes. A compensação era precisa, dolorosamente pessoal.

Ao chegarem na mansão, a tempestade isolou o casal completamente. Na sala, diante da lareira, a fachada de frieza de Rafael desmoronou. Ele parou a poucos metros dela, sem a máscara do magnata.

— O conselho quer o contrato assinado sem as cláusulas de salvaguarda, Beatriz. Eles querem que você seja apenas uma garantia.

— E você? — ela perguntou, desafiadora.

Rafael deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O perfume de cedro e algo mais sombrio a envolveu.

— Minha posição na Viana nunca foi o que me preocupou hoje. O que me mantém acordado não é o conselho, é saber que, apesar de tudo o que fiz, você ainda me olha como um estranho.

Ele tocou o rosto dela com uma delicadeza que a desarmou. Ali, no isolamento da tempestade, a barreira contratual parecia prestes a ceder, mas o perigo lá fora — a ameaça de Menezes de expor o segredo da família Viana — pairava como uma sombra inevitável sobre o primeiro momento de vulnerabilidade real entre os dois.

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