Sombras do Passado
O silêncio dentro da limusine blindada era uma entidade física, pesada como o mármore do salão de onde acabavam de sair. Beatriz mantinha o olhar fixo na Avenida Paulista, onde as luzes de neon borravam-se em filetes de sangue e ouro. Ela sentia o peso do olhar de Rafael sobre si, uma pressão que, após o confronto com Menezes, não era mais apenas possessividade — era vigilância pura.
— Menezes não blefou — a voz de Beatriz cortou o ar, desprovida de hesitação. Ela virou-se, encontrando os olhos escuros de Rafael, que pareciam absorver toda a luz interna do veículo. — Ele sabe sobre a cláusula sucessória. Sabe que o contrato que me obrigou a assinar é um castelo de cartas pronto para ruir.
Rafael não desviou o olhar. A frieza habitual dele, seu escudo inexpugnável, apresentava uma rachadura sutil: uma tensão na mandíbula que Beatriz aprendera a decifrar como o preço de sua própria audácia.
— Menezes é um abutre, Beatriz. Ele caça fraquezas — respondeu ele, a voz baixa, carregada de uma autoridade que tentava silenciá-la. — O que ele sabe não altera o fato de que você está sob minha proteção.
— Proteção? — Beatriz soltou uma risada curta, destituída de humor. — Ou um escudo para os seus próprios segredos? Meu pai tentou denunciar algo, não foi? E foi silenciado pelo conselho. Eu não sou um peão, Rafael. Se vou cair, vou saber exatamente por que estou sendo derrubada.
Rafael guardou silêncio. O ar no carro tornou-se irrespirável.
— Seu pai não era um santo, Beatriz. Ele era um homem acuado tentando salvar o que restava de sua dignidade. Eu tentei impedir que o conselho o destruísse. Mas há forças na Viana Holding que nem mesmo eu consigo conter sozinho.
Na madrugada seguinte, a Viana Holding era uma catedral de sombras. Beatriz atravessou o saguão com a precisão de quem possuía a chave magnética que Rafael, em um momento de arrogante confiança, deixara ao seu alcance. Ao entrar no escritório, o cheiro de cedro e couro a atingiu. Ela não buscou balancetes. Ela acessou a pasta oculta na rede interna, a que Menezes mencionara.
Seus dedos pararam. Não eram apenas documentos financeiros. Eram recortes de jornais, relatórios de detetives e fotos. Fotos dela. De anos atrás. Beatriz em um café na Vila Madalena, Beatriz saindo da faculdade, Beatriz em momentos de vulnerabilidade que ela acreditava terem sido privados. O arquivo datava de muito antes do escândalo de seu pai. O 'resgate' de Rafael não fora um acaso; fora um plano meticulosamente construído, uma armadilha de longo prazo.
Ao sair do escritório, Otávio Menezes a interceptou no saguão, seu sorriso uma lâmina polida.
— O noivado é um espetáculo encantador, Beatriz. Mas tenho provas da conexão entre seu pai e a morte não declarada na família Viana. Assine a renúncia ao contrato hoje, ou o escândalo será a sua última herança.
Beatriz sentiu o estômago revirar, mas manteve a postura impecável.
— Você fala de segredos como se fossem ativos, Otávio — ela respondeu, a voz firme. — Mas vi os balanços da holding. Se você tentar me destruir, eu exponho o rombo que você está escondendo no setor de logística.
Antes que Menezes pudesse reagir, passos firmes ecoaram pelo saguão. Rafael surgiu das sombras, a presença avassaladora. Ele não olhou para Beatriz; seus olhos, frios como lâminas de aço, estavam fixos em Menezes.
— Minha noiva não negocia com parasitas, Otávio — a voz de Rafael era um comando. Ele se aproximou, sua mão fechando-se com uma possessividade agressiva sobre o braço de Beatriz. — E você deveria saber que eu a observo desde muito antes de qualquer leilão. Ela é um ativo que eu nunca tive a intenção de perder.
Ele a conduziu para fora, em direção à tempestade que começava a desabar sobre a cidade, deixando Menezes para trás, mas deixando Beatriz com uma verdade ainda mais aterrorizante: ela não era uma parceira, era a peça central de um jogo que ela mal começara a compreender.