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Chapter 7: A Espiral do Gala

Beatriz confronta Rafael sobre o sacrifício financeiro que ele fez para protegê-la, descobrindo a extensão de sua vulnerabilidade. No gala, Menezes ameaça expor a cláusula oculta sobre o passado dos Viana, forçando Rafael a uma demonstração pública de unidade que coloca sua presidência em risco imediato.

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A Espiral do Gala

O escritório de Rafael Viana, no quadragésimo andar da Viana Holding, era um santuário de silêncio e poder, mas naquela tarde, a atmosfera parecia saturada de eletricidade estática. Beatriz não se sentou. Ela mantinha a postura impecável, os dedos levemente cerrados sobre o relatório impresso que retirara do servidor restrito da empresa. O documento detalhava a manobra financeira que Rafael executara para neutralizar Menezes no conselho administrativo. O custo fora devastador: a liquidez da holding estava em xeque, e o cargo dele, sob cerco direto dos acionistas minoritários.

— Você não precisava ter chegado a esse ponto — disse Beatriz, a voz cortante, desprovida da suavidade que o ambiente exigia. — O capital que você sacrificou para silenciar o Menezes não era seu para gastar sozinho. Você colocou sua presidência na linha de tiro por uma dívida que, tecnicamente, já está coberta pelo contrato. Por que o risco, Rafael? Por que a exposição?

Rafael, sentado atrás da mesa de ébano, observava-a com uma intensidade que parecia querer despir sua alma. Ele não se desculpou. Soltou a caneta tinteiro com um clique seco, o som ressoando como um tiro no silêncio da sala.

— O contrato é uma formalidade, Beatriz. O que eu faço com o meu capital é uma escolha estratégica — ele respondeu, a voz rouca, mas controlada. — Menezes planejava usar sua ruína financeira como a primeira peça do dominó para derrubar minha administração. Se eu tivesse permitido que ele tomasse a mansão, ele teria a alavancagem que precisava para me forçar à renúncia. Minha vigilância sobre você nunca foi apenas sobre o contrato. Era sobre garantir que o único ponto fraco que eles pudessem usar contra mim estivesse sob minha proteção, não sob a mira deles.

Beatriz sentiu o sangue gelar. A revelação não a libertava; a prendia em uma teia de dependência muito mais complexa. Ela percebeu, com um aperto no peito, que ao aceitar a proteção de Rafael, ela se tornara, de fato, o alvo principal. Se ele caísse por causa dela, ela não teria nada.

Horas depois, o Hotel Unique fervilhava com a elite paulistana. O gala beneficente era um organismo vivo de aparências, onde o luxo servia como disfarce para as adagas escondidas nas mangas. Rafael mantinha a mão firme na base da coluna de Beatriz, um gesto que, para os observadores, parecia uma declaração de posse romântica, mas que, para ela, era um lembrete constante da fragilidade daquela performance.

— Você está tensa — sussurrou ele, a voz baixa, quase inaudível sob a música ambiente. — Lembre-se, eles precisam acreditar na nossa união mais do que nós mesmos.

— Eles não olham para a nossa união, Rafael. Estão contando os dias para o leilão da mansão — retrucou ela, sem desviar o olhar do salão. — Quarenta e oito horas. O tempo está esgotando.

Antes que ele respondesse, Otávio Menezes materializou-se entre eles, com um sorriso predatório. Ele não cumprimentou Rafael; seus olhos pousaram diretamente sobre Beatriz, carregados de um escárnio calculado.

— O noivado mais falado de São Paulo — Menezes comentou, estendendo uma taça de champagne que ninguém aceitou. — É uma pena que a fundação de um edifício tão imponente esteja começando a ceder. Ouvi dizer que o conselho está questionando a liquidez da Viana Holding após certas… transferências de capital.

Beatriz sentiu o estômago revirar, mas manteve a coluna ereta. O ar na varanda, para onde Menezes os conduziu sob o pretexto de uma conversa privada, parecia rarefeito. Ele segurava um envelope pardo com a mesma displicência com que segurava sua taça de cristal.

— O jogo de vocês é elegante, Rafael, mas a verdade é que o contrato que une vocês não passa de uma fraude sucessória — Menezes destilou o veneno, a voz polida. — Tenho aqui provas. Se eu entregar isso ao conselho amanhã, sua presidência termina antes do nascer do sol. A menos, é claro, que a renúncia venha de você voluntariamente.

Rafael deu um passo à frente, sua presença física eclipsando a de Menezes. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Rafael sabia que o envelope continha o gatilho da cláusula oculta sobre o passado de sua família. Se a verdade sobre a morte não declarada dos Viana viesse à tona, a destruição seria total.

— Tentar chantagear um Viana dentro da própria casa é um erro de cálculo que você não sobreviverá para corrigir, Otávio — Rafael disparou, a voz gélida. Ele então fez o impensável: em vez de recuar, ele se virou para a multidão no salão, chamou a atenção de um dos diretores do conselho e fez um gesto de convite, forçando uma demonstração de unidade que o deixava sem qualquer defesa legal contra uma auditoria imediata.

Beatriz viu o movimento. Rafael estava se expondo ao máximo para protegê-la do escândalo, sacrificando sua última linha de defesa. Ela agora detinha o poder de salvá-lo com as provas que possuía sobre a logística de Menezes ou de deixá-lo cair. A proteção dele custara a ele sua posição, e o peso dessa dívida emocional era mais sufocante do que qualquer contrato de noivado.

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