A Escada Exposta
O ar no Pináculo de Aço cheirava a ozônio e desdém. Kaelen atravessou o pórtico da arena com o cronômetro do seu dispositivo de méritos piscando em um vermelho agressivo: oito horas para a purga. Se não vencesse os combates obrigatórios hoje, sua conta seria zerada e ele seria expulso como lixo cultivador.
— Olhem, o “sucateiro” chegou para o abate — zombou Jaren, o favorito da arena, bloqueando o caminho. A plateia, um mar de jovens nobres, rugiu em risadas.
Kaelen não respondeu. Seus dedos roçaram o Fragmento de Núcleo escondido na manga. Era instável, uma cicatriz de energia pura que queimava sua pele, mas era a única chave para estabilizar a Técnica do Vácuo. Quando Jaren avançou, sua palma envolta em chamas espirituais, Kaelen não recuou. Ele fechou o punho, absorvendo o calor insuportável do artefato. A energia proibida, antes um caos indomável, fluiu conforme seu comando, injetando uma vitalidade bruta em suas veias. O ar ao redor de seu braço direito vibrou, distorcendo a luz. No momento do impacto, Kaelen não bloqueou; ele converteu a inércia do ataque de Jaren em força cinética pura. O contra-ataque foi seco, um estalo de osso e a queda do favorito no centro da arena. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
— Ranking atualizado — a voz mecânica do juiz de pedra ecoou. — Kaelen, posição 84. Acesso liberado: Escada de Prata.
Kaelen mal teve tempo de processar a subida antes de ser interceptado nos corredores por Valerius, acompanhado por dois oficiais da Tesouraria.
— O leilão foi um erro, Kaelen — Valerius sorriu, um gesto sem calor. — Você comprou o Fragmento com créditos que não possui. A dívida de quatrocentos méritos está vencendo. Oito horas. A Academia não tolera devedores que se escondem atrás de vitórias de fachada.
Kaelen manteve a voz fria.
— O erro foi seu, Valerius. Eu venci a prova pública. O prestígio de um combatente da Escada de Prata é um ativo. Se a Tesouraria quiser cobrar, que o faça sobre o excedente da minha nova alocação de recursos. — Ele deu um passo à frente, forçando os seguranças a recuarem diante da autoridade de um recém-promovido.
Valerius recuou, mas o olhar de Mestre Vane, observando das sombras do balcão superior, tornou-se persecutório. Kaelen subiu as escadas de pedra até o nível superior. O éter ali era denso, reservado para os dez melhores, mas, bloqueando o caminho para o depósito, estava Lira.
— Você subiu rápido demais — disse ela, a voz baixa, o olhar fixo na luva de Kaelen. — Sei o que você está usando para estabilizar o Vácuo. Vane também sabe.
Kaelen ignorou o aviso, infiltrando-se nos Arquivos Proibidos logo após o confronto, movendo-se com a precisão de um fantasma. Ele precisava de evidências. Seus dedos roçaram um tomo encadernado em couro de fera de vento: o registro contábil não oficial da Academia. Kaelen abriu a página marcada. Ali, a caligrafia de Vane detalhava o desvio sistemático de fundos que mantinha a elite no topo. Ele capturou a imagem com um cristal de memória, mas o brilho azulado do dispositivo iluminou o corredor. Um estalo metálico ecoou atrás dele.
Kaelen girou, pronto para o combate, mas encontrou apenas Lira na penumbra. Ela não chamou os guardas. Ela apenas observou o cristal na mão dele, um sorriso de predador cruzando seus lábios.
— Você acabou de se tornar o peão mais perigoso deste tabuleiro, Kaelen. E o Ciclo de Ranking não vai esperar você decidir se é um herói ou um mártir.