O Leilão do Desespero
O suor que escorria pela nuca de Kaelen não era umidade comum; era uma película fria e metálica, o resíduo cinético da Técnica do Vácuo que se recusava a dissipar. Escondido no canto mais sombrio do Albergue dos Rebaixados, ele sentia o rebote da técnica devorando suas reservas como um parasita faminto. Cada batida de seu coração ressoava com um zumbido elétrico nas costelas, um lembrete físico de que ele havia forçado o sistema da Academia além do limite permitido para um cultivador de sua linhagem. Faltavam dez horas para o fechamento do ciclo. A dívida de quatrocentas unidades de mérito pesava em seu registro como uma sentença de morte, e o Fragmento de Núcleo que ele acabara de garantir no mercado negro pulsava em sua palma em uma frequência errática.
Se ele não integrasse aquele artefato aos seus canais antes do amanhecer, o rebote rasgaria sua estrutura interna, transformando-o em um exemplo de ineficiência para os arquivos de Mestre Vane. Ao tentar filtrar a energia do núcleo, uma marca de luz pálida brilhou por um instante em seu antebraço, revelando um padrão geométrico que Vane, com seu olhar de predador institucional, certamente reconheceria como um vestígio de uma linhagem há muito banida. O pânico gelou suas veias, mas Kaelen o converteu em foco. Ele não tinha luxo para o medo.
Duas horas depois, o Salão de Leilões da Academia era um mar de seda bordada e auras arrogantes. Kaelen manteve o capuz baixo, sentindo o peso de cada crédito gasto. Ele mal se acomodou na última fileira quando o ar mudou. Lira, a herdeira da linhagem Solar, virou o pescoço com uma precisão predatória. Seus olhos encontraram os dele, reconhecendo o "azarão" da auditoria. Ela não sorriu; apenas ergueu uma sobrancelha, um sinal silencioso de que ele estava sob vigilância constante.
— O próximo lote — anunciou o leiloeiro, a voz ecoando com autoridade magnética — é um Fragmento de Núcleo Estabilizador. O artefato que todos os buscadores de eficiência almejam.
O objeto brilhou sob o cristal. Era a peça que Kaelen precisava para não explodir. Sem hesitar, ele levantou a placa. O silêncio no salão foi imediato, denso, carregado de desdém. Ele acabara de declarar guerra aos bolsos sem fundo da elite. Um murmúrio de escárnio percorreu as fileiras de veludo. Kaelen sentiu o suor frio escorrer pela nuca enquanto o preço saltava dez mil créditos em um piscar de olhos, uma manobra calculada para humilhá-lo.
— Vinte mil — retrucou Kaelen, sua voz firme apesar do aperto no peito.
Valerius, sentado na ala nobre, levantou-se lentamente, seus olhos fixos em Kaelen como um predador avaliando uma presa ferida. O herdeiro da linhagem Solar não queria o artefato; ele queria que Kaelen falisse antes mesmo da próxima prova, garantindo sua expulsão administrativa.
— Cinquenta mil — Valerius disparou, o preço inflado por pura crueldade. — Vamos, Kaelen. O lixo da academia não serve nem para peso de papel. Por que o desespero?
Kaelen sentiu o sangue pulsar nas têmporas. Se ele recuasse, perderia a chance de estabilização e seria consumido pelo próprio poder. Se avançasse, sua conta ficaria zerada, deixando-o sem recursos para a semana seguinte. Ele forçou um sorriso desleixado, uma fachada de quem não se importava com as consequências.
— É sucata, Valerius. Mas eu gosto de colecionar lixo — Kaelen declarou, arriscando o tudo ou nada.
Ele venceu o leilão, mas ao custo de cada unidade de mérito que possuía. Ao sair do salão, com o fragmento ainda quente na mão, foi interceptado por Lira no corredor de mármore. Ela não buscava briga, mas seu olhar era uma lâmina.
— Você comprou um lixo instável por um preço que não pode pagar — disse ela, a voz baixa. — Mestre Vane está revisando as atas. Ele não acredita que você sobreviveu por sorte. Ele acha que você encontrou algo proibido.
Kaelen parou, sentindo o peso do Fragmento em sua túnica. A dívida era uma corda em seu pescoço, e a técnica que ele usava para sobreviver era a única ferramenta de corte que possuía.
— A sorte é um recurso, Lira. Alguns de nós apenas aprendem a gastá-la melhor que outros — ele respondeu, passando por ela.
Ele sabia que a vitória no leilão era apenas o primeiro degrau. À frente, a Escada de Prata se erguia, um novo nível de acesso que já estava sendo vigiado, e ele era agora o alvo principal de uma academia que não perdoava a ascensão de quem não tinha nome.