A Verdade em Transmissão Aberta
O impacto contra o concreto do Nível de Manutenção não foi um baque; foi um estalo de osso e metal que reverberou pelos nervos de Kael. O 04-K não existia mais. A cem metros, a carcaça fumegante do seu frame era apenas uma pilha de sucata contorcida, desintegrada pelo Protocolo de Purga em uma chuva de faíscas e óleo fervente. Kael tossiu, o gosto de sangue metálico preenchendo sua boca, e forçou o corpo a se arrastar para trás de um pilar de sustentação corroído.
Ele não tinha frame. Tinha apenas o traje de impacto rasgado e a interface neural zumbindo no córtex, quente como um ferro em brasa. O Protocolo de Purga varria o perímetro com feixes de luz escaneando os escombros. Kael tocou a têmpora, sentindo a conexão fantasma da rede. O upload. Ele havia forçado a falha de telemetria no servidor do Tier Zero, empurrando os dados da servidão vitalícia para o sinal público da metrópole. 92%... 94%... 97%.
O ar nos túneis de serviço tinha gosto de ozônio e desespero. Atrás dele, o eco de botas de metal pesado contra o concreto soava como um veredito. Uma sombra projetou-se contra a parede. Kael sacou uma chave de torque, os nós dos dedos brancos, mas baixou a guarda ao ver o chassi de Valéria 'Aço'. Ela estava encostada em um duto, com o braço esquerdo do seu frame pendendo por cabos expostos.
— A Purga não vai parar no Tier Zero — a voz de Valéria era um fio de navalha. — Eles ativaram o protocolo de silenciamento total. Você é o alvo, e qualquer um no seu raio de explosão é colateral.
Valéria estendeu a mão, entregando um chip de acesso de emergência. — Isso contém as chaves para os sistemas de difusão de sinal da arena. Se você quer que a verdade sobreviva, precisa amplificar o sinal antes que eles cortem a rede da cidade.
Eles avançaram pelos corredores, o som das botas da segurança aproximando-se. Ao chegarem ao setor de visitantes, o cenário mudou. Acima deles, os telões gigantes da Academia, antes reservados para placares de prestígio, tremularam e se estabilizaram em uma imagem crua: o contrato de servidão vitalícia de Kael, exposto em letras garrafais. O silêncio inicial da multidão foi substituído por um murmúrio que crescia como uma maré. O público, antes anestesiado, começou a se levantar. Alguém arremessou uma garrafa contra um oficial. O impacto foi o gatilho. O caos explodiu; o setor de visitantes tornou-se uma zona de conflito. Kael hackeou o sistema de som da arena, sua voz sobrepondo-se à confusão, incitando a revolta, enquanto as telas da cidade inteira começavam a reproduzir a corrupção da Academia.
Na periferia de Aço-Sideral, Kael e Valéria observavam a arena em chamas. O complexo, antes um templo de glória, era agora uma ferida aberta no horizonte, cuspindo fumaça contra o céu noturno. O Protocolo de Purga transformara o local em um forno, mas o estrondo que ecoava não era de combate—era o sistema desmoronando sob o peso da verdade. Valéria, com a jaqueta rasgada e queimaduras de uma ejeção forçada, apontou para o holograma gigante na praça central. A contagem regressiva das dívidas de cada piloto era exibida como uma sentença de morte pública.
— Eles não vão apenas nos caçar, Kael — Valéria disse, a voz cortante. — A Academia não tolera o fim do seu próprio mito.
Kael tocou o ferimento em seu flanco. A dívida que o prendia, aquele cronômetro invisível que ditava sua vida, havia sido quebrada pela exposição, mas o preço da liberdade era o exílio e a caçada iminente. Com a arena em ruínas ao fundo, ele olhou para o horizonte: o sistema caíra, mas a guerra estava apenas começando.