O Coração da Máquina
O alerta de integridade do 04-K não era mais um bipe; era um grito contínuo e agudo que vibrava na estrutura metálica do cockpit. Seis por cento. A blindagem torácica estava escurecida pela fuligem, e o cheiro de ozônio e isolamento queimado tornava o ar rarefeito. Eu tinha 17 horas antes que a dívida intergeracional da minha família me transformasse em um ativo confiscado, mas o Protocolo de Purga da Academia não pretendia esperar tanto.
— Kael, se não estabilizarmos a telemetria agora, o sistema vai fritar nossos núcleos antes de tocarmos no servidor — a voz de Valéria ecoou no meu canal privado, destilando uma urgência gélida. O mech dela, uma silhueta esguia e arrogante, avançava pelo corredor digital do Tier Zero, ignorando os disparos de supressão que a rede de defesa da arena vomitava contra nós.
Eu não respondi. Meus dedos dançavam sobre os controles, cada toque um esforço consciente para não deixar que a trepidação do frame sabotado traísse minha precisão. O sistema de segurança da Academia não estava apenas tentando nos expulsar; ele estava drenando a energia do 04-K. Senti o dreno. Minha reserva de combustível despencou, sugada diretamente para os firewalls do servidor que tentávamos invadir.
— Segura a linha, Valéria! — rugi, ativando a Técnica Banida.
O núcleo do 04-K entrou em fusão controlada. O frame, já em frangalhos, tornou-se um condutor de energia instável. Senti a dor da sobrecarga, uma sensação de que minha própria história estava sendo consumida para alimentar o hack. No instante em que as camadas de segurança se desfizeram, a verdade me atingiu como um soco: a dívida não era financeira. Era um contrato de servidão vitalícia, projetado para garantir que pilotos como eu nunca subissem além do Tier 4. A Academia não formava campeões; ela moía vidas para manter o status quo.
O upload começou. A barra de progresso, em azul neon, subia lentamente na tela, enquanto o sistema de defesa da arena identificava Kael como a ameaça prioritária. O Protocolo de Purga não era mais uma ameaça abstrata; os canhões de teto da arena giraram, travando em meu frame.
— Kael, eles vão incinerar a seção! — Valéria gritou.
— Deixa eles tentarem — respondi, com a voz embargada pela sobrecarga.
Valéria usou seu mech para criar um escudo improvisado, um bloqueio físico desesperado que permitiu que eu ejetasse milissegundos antes que o 04-K fosse reduzido a cinzas pelo fogo de supressão. O impacto da ejeção me lançou contra os escombros frios da arena. Do chão, com a visão turva pelo choque, olhei para os telões da cidade. O upload estava completo. A corrupção da Academia, os contratos, os nomes dos pilotos descartados... tudo estava sendo transmitido para cada cidadão sob o brilho neon da metrópole. O sistema de defesa da arena, agora em modo de purga total, selou as saídas, enquanto as sirenes da cidade ecoavam, anunciando o fim do silêncio.