A Escada para o Tier Zero
O ar na cabine do 04-K tinha o gosto metálico de ozônio e isolante queimado. No painel de telemetria, a integridade estrutural piscava em um vermelho agressivo: 6%. Era o limite da existência do meu frame; cada vibração do motor parecia o suspiro final de um condenado. À frente, o portão do Tier Zero não era apenas uma barreira; era uma muralha de aço reforçado, zumbindo com a energia de uma sentença de morte que a Academia reservava apenas para os seus favoritos.
— Kael, se o pulso de sobrecarga falhar, a telemetria trava e a segurança nos incinera antes de tocarmos o solo da arena — a voz de Valéria, vinda pelo canal privado, não tinha a arrogância de costume. Estava cortante, carregada de uma urgência que espelhava a minha. Ela também estava na lista de descarte. Nossa aliança era uma trégua de sobrevivência, construída sobre a desconfiança mútua e o medo compartilhado.
— Eu sei o risco — respondi, meus dedos dançando sobre o console, ajustando a derivação de energia do núcleo. — Se não atravessarmos agora, a Academia fecha a brecha. Eles já notaram a oscilação. — A dívida intergeracional que pesava sobre meus ombros tinha menos de dezessete horas para ser paga. Se eu não entrasse no Tier Zero e vencesse, meu nome seria apagado junto com o que restava do meu frame.
Ativei a sequência. O 04-K soltou um gemido metálico, um lamento de metal estressado, enquanto eu forçava o núcleo a uma sobrecarga controlada. O portão tremeu, os campos de contenção oscilaram e, com um estrondo ensurdecedor que fez minha visão escurecer, o aço cedeu. Entramos.
O ambiente mudou instantaneamente. O Tier Zero não cheirava a sucata; era um ambiente de esterilização fria e morte calculada. As torres de defesa autônoma giraram como predadores, focando em nossas assinaturas não autorizadas.
— Mantenha a telemetria aberta — Valéria ordenou. — Se você hesitar, seremos sucata em segundos.
Ela enviou seu fluxo de dados. Sincronizei meu núcleo com a frequência dela, uma manobra suicida que fundia nossas telemetrias. O sistema da Academia, confuso pela sobreposição de sinais, paralisou por um milissegundo. Foi o tempo necessário. Executamos uma manobra de espelhamento, movendo-nos como uma única entidade, uma sombra metálica que deixava os juízes da Academia em silêncio absoluto. A plateia, acostumada com a perfeição monótona dos favoritos, começou a clamar. O público queria o caos, e nós éramos o caos em forma de aço.
— Eles não podem nos descartar agora — murmurei, sentindo a adrenalina queimar. — Estamos no centro do palco.
Mas o triunfo foi breve. O sistema da Academia, reconhecendo a assinatura de energia da Técnica Banida, não enviou guardas, mas algo pior: o Protocolo de Purga. As paredes da arena começaram a se reconfigurar, transformando o solo em uma fornalha de lasers de rastreamento. O 04-K, já em frangalhos, começou a derreter sob a pressão.
— Kael, eles estão tentando incinerar tudo! — Valéria gritou.
Eu não tinha escolha. Forcei a fusão final de nossas telemetrias, ignorando os limitadores de segurança. O 04-K brilhou com uma luz azul instável. Eu não estava apenas pilotando; eu estava quebrando a escada da Academia por dentro. Enquanto o frame derretia, atravessamos o bloqueio final. O sistema de defesa, agora em alerta máximo, identificou minha assinatura como uma ameaça de nível crítico. O protocolo de purga não era mais uma medida de segurança; era uma execução. E eu estava pronto para provar que, mesmo em ruínas, ainda podia vencer.