Aliança Inesperada
O 04-K não era mais uma máquina; era uma ferida aberta. Com a integridade estrutural travada em 6%, cada vibração do motor ressoava no chassi como um batimento cardíaco irregular. Kael, com as mãos cobertas pela graxa negra que marcava sua linhagem de sucateiro, ajustou o último parafuso do modulador de pressão. A sabotagem da Academia fora contida, mas o preço fora o esgotamento total das peças de reposição que ele arrancara no Nível 4.
— Se você ligar esse núcleo, Kael, ele vai derreter antes do primeiro minuto de prova — a voz de Mestre Jairo surgiu das sombras do hangar, carregada de um cinismo que mal escondia o medo. — A Técnica Banida não é um atalho. É um suicídio assistido.
— A dívida vence em dezoito horas, Jairo. Se eu não subir, o confisco é imediato. Prefiro que o 04-K derreta sob meus pés a vê-lo ser desmontado por burocratas — Kael respondeu, sem desviar o olhar do display trêmulo. A pressão era um peso físico, o ar do hangar parecia rarefeito.
Um som de passos metálicos ecoou. Valéria 'Aço' emergiu da penumbra. O traje de piloto da corporação, impecável e opressor, parecia deslocado entre as pilhas de sucata. Ela não trazia o desprezo de costume. Seus olhos, fixos no 04-K, revelavam a mesma exaustão de quem compreendera, tarde demais, que o topo da pirâmide era apenas uma cela mais luxuosa.
— Eles me colocaram na lista de descarte, Kael — ela disse, jogando um drive de dados sobre a bancada. O logotipo da Academia, gravado no metal, estava trincado. — Eu sou a joia da coroa, mas joias são trocadas quando perdem o brilho. A telemetria da Arena está sob meu controle parcial. Se você injetar esse código, o monitoramento deles perderá a estabilidade dos nossos frames por três segundos. É o tempo necessário para a sobrecarga.
Kael pegou o drive. O peso do objeto era irrisório, mas representava a única chance de transformar o massacre planejado em uma insurreição. — Por que me ajudar? — ele perguntou.
— Porque prefiro queimar a Academia com você do que ser descartada sozinha — ela respondeu, a voz desprovida de qualquer arrogância.
Horas depois, na antecâmara da Arena, a tensão era palpável. O cronômetro da dívida marcava dezessete horas. Kael e Valéria alinharam seus frames. O 04-K ganiu, uma dor metálica que Kael sentia em seus próprios ossos. Quando o portão se abriu, o sistema da Arena tentou travar seus protocolos de movimento, mas o código de Valéria entrou em vigor. O monitoramento falhou. O sistema, confuso pela injeção de dados, desbloqueou uma rota de acesso não autorizada. O portão do Tier Zero — o nível proibido, onde a tecnologia de ponta e os segredos da Academia eram mantidos sob chave — começou a se abrir. O caminho para o topo não era uma escada; era uma brecha na estrutura do sistema.