O Preço da Insurreição
O cheiro de ozônio e graxa queimada no Nível 4 era um lembrete constante de que, na Academia, o ar tinha um custo que Kael não podia mais pagar. Sob a luz trêmula do soldador de Mestre Jairo, o 04-K parecia menos um frame de combate e mais uma carcaça de animal abatido. Com a integridade estrutural travada em míseros 6%, o núcleo pulsava com uma radiação residual que fazia o metal da cabine estalar. Faltavam menos de dezoito horas para o duelo contra o campeão da corporação, e cada segundo era um prego no caixão de sua linhagem familiar.
— Se você tocar nesse modulador de pressão, o sistema de resfriamento entra em colapso total — avisou Jairo, a voz rouca cortando o chiado elétrico. — É uma assinatura corporativa, Kael. Eles não querem apenas que você perca; querem que você queime dentro da cabine para desencorajar qualquer um que pense em usar a Técnica Banida.
Kael não respondeu. Seus dedos, calejados e manchados pela graxa negra, tateavam as entranhas do frame com uma precisão nascida do desespero. Ele localizou o dispositivo: uma peça minúscula, cromada, cirurgicamente soldada na linha de combustível principal. Era uma armadilha elegante, um micro-detonador camuflado como um sensor de fluxo que forçaria uma explosão assim que o 04-K exigisse potência máxima. Ele removeu a placa de blindagem, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. O 04-K era uma bomba-relógio, e ele estava sentado sobre o pavio.
— Eu não tenho escolha, Jairo — Kael murmurou, a voz firme apesar da exaustão. — Se eu entrar na arena com isso, sou um alvo estático. Se eu remover sem compensar a pressão, o núcleo derrete antes do primeiro disparo.
Ele começou a substituição. Usando os componentes de alta performance que arrancara dos destroços no Nível 4, Kael improvisou um sistema de desvio. A cada aperto de parafuso, o drone de vigilância da Academia pairava sobre o hangar, um zumbido constante que parecia zombar de sua tentativa de sobrevivência. Quando a última conexão foi selada, o 04-K estava funcional, mas a integridade estrutural era um pesadelo de engenharia: um movimento brusco e o frame se tornaria sucata.
Ao sair para os corredores da Arena de Elite, Kael sentia cada músculo tenso. A dívida intergeracional pesava como chumbo. Foi ali, entre os néons que zumbiam como serras elétricas, que Valéria 'Aço' interceptou seu caminho. Ela não caminhava; ela desfilava com a perfeição de um mecanismo de elite, mas havia uma trinca na sua fachada. O medo de ser descartada pela corporação, agora que ela mesma começava a falhar nos testes de eficiência, era uma sombra que ela não conseguia esconder.
— Você está andando como um homem que já aceitou o lixo — Valéria parou a dois metros, os olhos escaneando Kael com um desdém que, desta vez, não parecia genuíno. — A Academia não vai apenas te destruir amanhã, Kael. Eles vão usar o seu frame para testar a durabilidade das novas blindagens. Você é um experimento, não um piloto.
— Veio ver se a sabotagem da Academia foi bem executada? — Kael rosnou, o corpo pronto para o combate. — Quer garantir que o meu frame vire sucata antes da pesagem oficial?
Valéria soltou uma risada seca e estendeu um drive de dados, a mão levemente trêmula. — Eles me descartaram, Kael. A 'Aço' não é mais necessária quando eles têm modelos mais novos e menos... questionáveis. Estes são os códigos de acesso à telemetria da prova. Se você souber onde injetar o código, pode transformar a sabotagem deles em uma sobrecarga reversa no sistema de arena.
Kael encarou o drive. A oferta era uma aliança de conveniência, um pacto de sangue forjado no descarte. Ele percebeu, com um frio na espinha, que o duelo de amanhã não era apenas uma prova de habilidade, mas o cenário de uma purga maior. Ao aceitar o drive, ele selou seu destino: se a sabotagem não o matasse, a insurreição que ele estava prestes a iniciar contra a Academia certamente o faria.