Sussurros de Aço
O ar na oficina de Mestre Jairo tinha gosto de cobre e desespero. O 04-K, antes um frame de combate, agora era apenas um amontoado de metal estalando sob o resfriamento forçado. A integridade estrutural marcava 6%. O núcleo, em fusão parcial, emitia um zumbido grave que vibrava nos dentes de Kael. No holoprojetor, o cronômetro da dívida intergeracional era uma faca cravada no tempo: 17:42:09. Se o relógio chegasse a zero, a Academia não apenas levaria o frame; eles apagariam o nome de Kael da lista de pilotos, transformando-o em um fantasma sem crédito em um mundo que só reconhecia quem estava na pista.
— O núcleo está morto, Kael — Jairo disse, sem desviar o olhar de uma solda fria. — Você forçou a técnica proibida além do limite. O 04-K não é mais um frame, é uma bomba-relógio com pernas.
— Eu não preciso que ele dure uma vida, Jairo. Preciso que ele dure até amanhã — Kael respondeu, limpando a graxa negra das mãos. A punição da Academia pelo uso da técnica proibida fora cirúrgica: créditos congelados, acesso a peças de reposição revogado. Ele estava isolado.
— Sozinho, você é um cadáver. Mas a Academia esqueceu que o lixo que eles descartam ainda tem valor — Jairo apontou para as sombras. — Vá ao Nível 4. Se você tiver algo para trocar, talvez consiga o que falta.
O Nível 4 era o esgoto da arena, onde pilotos endividados sobreviviam de restos. Kael encontrou o grupo de Roxo em uma galeria de manutenção. O ambiente era denso, carregado pelo cheiro de óleo queimado e pela tensão de quem não tinha nada a perder.
— A Academia programa um gargalo térmico nos nossos frames — Kael disse, sem rodeios, projetando o esquema que Jairo o ensinara. — Eles garantem que o resfriamento falhe no Tier 1. Eu descobri como contornar isso. A técnica não é sobrecarga; é redirecionamento de fluxo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Roxo, um veterano com o rosto marcado por queimaduras de plasma, estudou o esquema. Quando a compreensão brilhou em seus olhos, a desconfiança deu lugar a um respeito frio. Eles precisavam daquela técnica tanto quanto Kael precisava de peças. A troca foi rápida: componentes de alta performance por conhecimento proibido.
Kael estava prestes a sair quando um vulto se moveu nas sombras. Um espião da Academia, com o uniforme impecável que contrastava com a imundície do local, bloqueou sua saída. Ele não parecia preocupado com a reunião secreta.
— Você está perdendo tempo, Kael — o espião disse, a voz desprovida de qualquer emoção. — A Academia já decidiu. Amanhã, você enfrentará o melhor piloto da corporação. É um duelo público. O sistema já garantiu que seu frame falhe no momento em que você tentar a manobra final.
Kael sentiu o peso da armadilha. Ao retornar à oficina e instalar as peças obtidas, ele encontrou a assinatura de energia estranha no modulador de pressão. Não era uma peça de reposição; era um dispositivo de sabotagem, configurado para detonar o núcleo no auge da prova. A Academia não queria apenas vencê-lo; eles queriam que ele explodisse diante de todos, provando que a técnica proibida era um erro fatal. Ele tinha menos de 18 horas para transformar aquela sabotagem em sua única arma.