Além da Escada
O ar no Setor de Destroços da Arena não era mais apenas metálico; tinha o gosto acre de isolamento queimado e o cheiro de uma era que acabava de ser incinerada. Kael tossiu, o peito latejando sob o traje de piloto enquanto se arrastava para fora da carcaça fumegante do 04-K. O frame, antes sua única garantia contra a servidão vitalícia, era agora uma pilha de ligas retorcidas e cabos expostos, um esqueleto de metal que falhou no momento decisivo. O Protocolo de Purga não era um mito de corredor; era uma chuva de drones de vigilância que varriam o hangar com lasers de corte, desintegrando qualquer evidência — ou testemunha — do vazamento de dados que ele acabara de transmitir para a cidade.
— Kael! — A voz de Valéria soou abafada por trás de uma viga de sustentação tombada. Ela estava prensada contra a parede, a perna esquerda presa sob um fragmento da fuselagem. O sangue manchava seu traje de elite, agora tão sujo quanto o dele. Kael ignorou a dor aguda em suas costelas e correu, seus dedos encontrando a alavanca de ejeção de emergência do 04-K, ainda presa no chassi. Com um esforço que fez seus músculos gritarem, ele usou a peça como alavanca e empurrou a viga. O metal rangeu e cedeu. Valéria se arrastou para fora, os olhos fixos na entrada do hangar, onde o brilho frio dos lasers de patrulha se aproximava.
Eles se arrastaram pelos dutos de ventilação, o silêncio sendo interrompido apenas pelo zumbido distante dos drones. Através de uma grade de serviço, Kael viu os monitores da central de dados. O feed que hackearam — a prova cabal da servidão vitalícia disfarçada de dívida — rodava em loop, ignorando os filtros de censura. Lá fora, a multidão que antes aplaudia os mechs agora formava uma massa revolta, bloqueando os portões com escombros. A hierarquia da Academia estava sendo desmontada em tempo real.
— Eles não vão conseguir segurar os portões por muito tempo — murmurou Valéria, a voz rouca, sem o brilho arrogante de outrora. — Sem a corporação me financiando, sou apenas um alvo na lista deles. Se sairmos por cima, seremos os primeiros a serem eliminados.
Nos níveis inferiores, o Mestre Jairo os aguardava em sua oficina clandestina, cercado por sucatas que contavam a história de uma rebelião fracassada. O velho ferreiro parecia mais envelhecido, a graxa negra em suas mãos contrastando com o núcleo de dados que Kael colocou sobre a bancada.
— A Academia bloqueou os acessos superiores — Jairo sibilou, seus olhos analisando o núcleo. — Vocês são os nomes mais procurados desta cidade. Se querem sair, precisam atravessar os túneis de descarte. Mas a Academia enviou caçadores de elite para interceptá-los no ponto de saída.
Kael percebeu que Jairo estava sendo monitorado pelos sensores de proximidade da própria oficina. Sem hesitar, ele conectou o terminal de Jairo ao núcleo de dados e, usando a técnica proibida de sobrecarga de núcleo que o mentor tanto temia, forçou uma descarga eletromagnética. O estalo foi ensurdecedor; os sensores de vigilância fritaram em um lampejo azulado, deixando a oficina mergulhada na escuridão, exceto pelo brilho de emergência.
— Agora! — gritou Kael, puxando Valéria. Eles correram pelos túneis de descarte, o ar úmido e fétido de lixo industrial sendo o único conforto antes da saída. Ao emergirem na periferia industrial, a vasta extensão de sucata se abriu diante deles sob um céu tingido pelo fogo da Arena em chamas.
Uma patrulha de elite os aguardava, flanqueando a saída. Kael, embora sem um frame, usou sua intuição de sucateiro. Ele disparou um cabo de alta tensão que ele havia arrancado da oficina contra um transformador exposto no terreno. O arco voltaico iluminou a noite, cegando os soldados da Academia por um segundo crucial. Valéria, aproveitando a brecha, avançou com a precisão de quem ainda possuía o instinto de um piloto de elite. Kael a seguiu, usando os escombros como cobertura, derrubando o último caçador com a frieza de quem não tinha mais nada a perder.
Eles cruzaram a fronteira da zona de exclusão, onde as luzes da Academia se tornavam apenas pontos distantes. Kael olhou para trás, para o horizonte industrial. A dívida estava anulada pela revolta, mas o mundo lá fora era vasto e hostil. Ele não tinha um frame, mas tinha a liberdade. E, ao longe, o som de novas sirenes indicava que a caçada apenas começava.