Arena de Alta Voltagem
O ar na Arena de Aço-Sideral tinha gosto de ozônio queimado e desespero. Kael sentia cada vibração do 04-K como se fosse um espasmo em seu próprio sistema nervoso; com apenas 11% de integridade estrutural, a carcaça de seu frame gemia sob o peso dos propulsores. À sua frente, três modelos de elite da Academia deslizavam pela pista com a elegância de predadores, seus sistemas de mira laser traçando linhas vermelhas sobre o chassi remendado de Kael. O cronômetro de sua dívida, invisível para os espectadores, mas martelando em seu córtex neural, marcava menos de vinte e quatro horas para o confisco total. Valéria 'Aço' observava do camarote privativo, sua postura impecável traindo o desdém absoluto que dedicava ao azarão da sucata. Para ela, Kael era uma falha estatística; para Kael, cada segundo ali era a única moeda de troca que ele possuía.
— Vamos, sua lata velha — sibilou Kael. Ele ignorou o aviso de segurança que piscava em âmbar no painel: Risco de colapso estrutural: iminente. Com um movimento brusco, ele rompeu o selo de chumbo do limitador de núcleo. A 'Técnica Banida' de Mestre Jairo não era um truque, era uma sentença de morte técnica. Instantaneamente, o núcleo do 04-K rugiu, uma energia instável e azulada varrendo os circuitos que deveriam estar em repouso. O frame saltou, não como um robô, mas como um predador, realizando um movimento de inércia impossível que desafiava as leis da física da arena. O público nas arquibancadas explodiu em um rugido de choque. Valéria, assistindo de cima, congelou com a taça de hidromel na mão; a anomalia que ela esperava destruir acabara de se tornar uma força incontrolável.
O combate se transformou em um borrão de metal e faíscas. Kael sentia o suor escorrer pelas têmporas enquanto seus dedos dançavam sobre os controles. O display de integridade piscava em um vermelho alarmante: 8% de estrutura restante. À sua frente, o 'Sentinela' de um rival de elite avançava com a precisão cirúrgica que o dinheiro da Academia podia comprar. O oponente disparou uma rajada de supressão, mas Kael, impulsionado pela sobrecarga, não desviou. Ele não podia se dar ao luxo de gastar energia com evasões conservadoras. Ele puxou a alavanca ao máximo. O 04-K soltou um ganido metálico, um som de agonia que reverberou por toda a carcaça. O núcleo, agora em fusão, injetou uma carga bruta nos propulsores. Kael colidiu com o Sentinela, a inércia acumulada transformando seu frame em um projétil de sucata letal. O oponente foi lançado contra a barreira de contenção, seu chassi dobrando-se como papel sob o impacto da manobra banida.
O silêncio que se seguiu à queda do rival foi mais aterrorizante que o barulho dos canhões. O público, antes silencioso, agora rugia — uma massa amorfa de investidores cujos aplausos tinham o som de metal batendo contra metal. Kael sentiu o calor sufocante emanar da cabine, transformando o assento de pilotagem em uma chapa de fritura.
— Kael, corta o fluxo! — a voz de Mestre Jairo estalou no comunicador, carregada de uma urgência rara. — Se você não isolar o núcleo agora, o derretimento vai fundir os circuitos de controle. Você vai ser um prisioneiro dentro de um caixão de ferro.
Kael não respondeu. Ele viu, através do visor, a silhueta de Valéria observando-o. Ela não aplaudia. Seus olhos, focados e gélidos, acompanhavam a fumaça negra que começava a vazar das juntas do 04-K. O núcleo estava derretendo em pleno combate, a integridade despencando para 6%. Ele havia vencido a prova, mas a vitória tinha um sabor de cinzas. Antes que pudesse comemorar, o console de Kael brilhou com um aviso oficial da Academia. A diretoria, alarmada pela técnica proibida e pelo desempenho disruptivo, acabara de congelar seus créditos. O sistema não apenas negava o prêmio; ele declarava guerra. Kael olhou para o núcleo em fusão e compreendeu: a Academia não permitiria que ele subisse a escada. Ele teria que queimar o resto de seu frame para sobreviver à noite.