A Técnica Banida
O cronômetro holográfico sobre a bancada de Jairo marcava 23:14:02. O brilho âmbar dos dígitos projetava sombras longas sobre o chassi do 04-K, um esqueleto de metal que parecia mais uma pilha de sucata do que uma máquina de guerra. A integridade estrutural estava cravada em 12%. Qualquer impacto mais forte, e o frame se tornaria um caixão de alumínio.
— Você não entende, Jairo — Kael soltou a chave inglesa, o som metálico ecoando pelo hangar vazio. — Se eu não subir para o Tier 2 amanhã, a Academia não vai apenas confiscar o frame. Eles vão apagar o nome da minha família do registro de crédito. Eu serei um fantasma. Sem histórico, sem cidadania, sem nada.
Jairo, cujas mãos eram um mapa de cicatrizes de solda, não desviou o olhar da bancada. Ele deslizou um chip de dados codificado em vermelho, uma peça proibida que parecia pulsar com uma luz doentia.
— Isso é a 'Técnica Banida'. Um protocolo de sobrecarga de núcleo que ignora todos os limitadores de segurança da Academia — a voz do velho era um sussurro áspero. — Você terá potência para rasgar qualquer oponente do Tier 2, mas o 04-K não foi projetado para isso. O núcleo vai girar além do ponto de fusão. Você terá força bruta, Kael, mas o preço é a integridade do seu frame. Ele vai derreter por dentro.
Kael pegou o chip. O peso parecia maior do que o metal sugeria; era o peso de uma sentença. Ele subiu na cabine, o cheiro de ozônio e graxa velha invadindo seus pulmões. Ao inserir o protocolo, o motor do 04-K emitiu um gemido agudo, um grito de metal que ressoou em seus próprios ossos. Por um segundo, o frame brilhou com uma intensidade violenta. Ele tinha a técnica. Agora, precisava de um palco.
Na Área de Registro da Academia, o ar era rarefeito, carregado com o zumbido das telas de ranking. Kael sentia o peso de cada segundo; restavam menos de vinte e quatro horas.
— O 04-K ainda respira? — A voz de Valéria 'Aço' cortou o barulho da fila. Ela estava impecável, o uniforme da corporação sem uma única mancha. — Ouvi dizer que o seu frame é mais remendo do que metal. A Academia alterou as regras do Tier 2. Não é apenas uma prova de resistência. É eliminação direta. Se você não cruzar a linha final com o núcleo intacto, o frame é confiscado na hora.
Kael focou no reflexo de Valéria no vidro escuro do painel. A arrogância dela era uma defesa contra a própria insegurança de ser descartada pela corporação.
— O 04-K não é sucata, Valéria — Kael respondeu, a voz firme. — É a única coisa que me separa do abismo. E se você acha que as regras de vocês me assustam, você não conhece o preço do meu silêncio.
Ele assinou o termo de responsabilidade. O terminal emitiu um bipe estridente. De volta ao hangar, Kael trabalhou febril. Sacrificou a mobilidade do braço esquerdo, fundindo placas de blindagem extra de um tanque descartado sobre o chassi. O calor do maçarico refletia em seu rosto, mas o frio na espinha era constante. Ele sabia que o 04-K era um alvo, mas precisava garantir que o cockpit não virasse um forno.
Na Arena de Combate de Aço-Sideral, o locutor ecoou, desprovido de empatia: — Atenção, pilotos. A prova de Tier 2 é um exercício de exaustão. O vencedor terá sua dívida liquidada. O perdedor terá seu frame confiscado e reduzido a sucata. Que a pressão comece.
Kael ajustou o cinto. Quando a luz de largada mudou para um vermelho cortante, o 04-K avançou com um solavanco que fez os sensores de integridade piscarem em vermelho: 11%. Valéria disparou primeiro. Seus canhões de pulso rasgaram o ar, forçando Kael a uma manobra evasiva que fez as juntas do seu frame protestarem. Ele estava encurralado contra a parede da arena. Sem saída, ele ativou a Técnica Banida. O núcleo rugiu, ignorando todos os avisos de segurança. O 04-K ganhou uma velocidade sobre-humana, mas o metal ao redor do núcleo começou a ceder, derretendo em um brilho laranja incandescente enquanto ele avançava para o impacto final.