Blood in the Records
O cheiro de óleo de máquina e tecido velho na oficina de Helena era a memória olfativa da infância de Lucas, mas hoje, o ambiente tinha o peso de uma cena de crime. A luz do fim da tarde cortava a poeira que dançava sobre as mesas de corte, iluminando o espaço vazio onde o livro de registros de 2018 deveria estar. O tique-taque do relógio de parede era abafado pelo som rítmico das britadeiras da obra de reurbanização que, a cada golpe, fazia o assoalho vibrar sob seus pés.
Helena estava sentada ao fundo, com as mãos trêmulas sobre uma caixa de retalhos. Ela não costurava; apenas encarava o vazio.
— Arnaldo diz que o livro nunca existiu, tia — Lucas afirmou, a voz soando mais dura do que pretendia. Ele revirou uma gaveta lateral, encontrando apenas notas fiscais vencidas e recibos de remessas que não batiam com a contabilidade oficial. — Mas eu vi a senhora anotando os pagamentos do fundo de proteção naquelas páginas cinzas. O rombo não é apenas contábil, é uma assinatura.
Helena levantou o olhar. Não havia medo, apenas uma exaustão que parecia ter décadas. Ela puxou a caixa de retalhos para mais perto, revelando um fundo falso de madeira compensada. Ali, não havia apenas o livro, mas um maço de envelopes lacrados com nomes de famílias que já tinham ido embora do bairro.
— Não é um rombo, Lucas — ela sussurrou. — É um mapa de sobrevivência. Se esse livro cair nas mãos deles, não é apenas o dinheiro que desaparece; são as pessoas que dependem desse ano
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