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Chapter 6: Dívidas de Família

Elias descobre que seu pai foi o executor do roubo da relíquia em 1994, destruindo sua motivação de redenção. O Antagonista Digital, Lucas, localiza o esconderijo através de uma tentativa de conexão de Beatriz. Elias escapa por um duto de ventilação enquanto Beatriz é capturada pela segurança do museu.

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Dívidas de Família

O som da chuva em São Paulo não era apenas clima; era um martelo batendo contra o zinco da central telefônica abandonada, um ruído metálico que impedia qualquer ilusão de silêncio. Elias encarou o tablet. O cronômetro no canto da interface, em vermelho incandescente, marcava 23 horas e 42 minutos para o leilão. Cada segundo que passava não era apenas tempo perdido; era a sua reputação sendo desmantelada em bits.

— O sinal morreu, Elias. Cortaram a fibra da quadra — a voz de Beatriz estava seca, desprovida da esperança que ela tentava manter horas atrás. Ela não olhou para ele; seus dedos moviam-se com uma precisão cirúrgica sobre os cabos expostos, tentando forçar uma conexão analógica que o sistema de Lucas já havia isolado.

Elias ignorou o aviso e tentou acessar sua conta bancária. A tela girou por longos segundos, um vazio digital que parecia durar uma eternidade, até que a sentença surgiu em letras garrafais: CONTA BLOQUEADA POR ATIVIDADE SUSPEITA E INVESTIGAÇÃO DE FRAUDE. Não era uma falha técnica. Era uma execução pública.

— Ele não está apenas nos caçando — Elias disse, o ar viciado do galpão pesando em seus pulmões. — Ele está apagando a minha existência. Sem dinheiro, sem trânsito, sem meios de provar que não sou o criminoso que o feed pintou. Ele está me tornando um fantasma antes de me destruir.

Ele precisava de respostas que o sistema não fornecia. Afastou-se para um canto, onde o chiado da chuva era menos ensurdecedor, e discou o número que guardava na memória como uma cicatriz: Tio Alberto, o homem que conhecia os segredos que seu pai levara para o túmulo. O telefone tocou três vezes antes da voz rouca soar como brita sendo moída.

— Elias? Você é um homem procurado. Sabe que seu nome está em todos os feeds? Lucas está vendendo sua imagem como se fosse um bife de luxo.

— Não me importo com o feed, Alberto. Preciso saber sobre a relíquia de 1994. O que meu pai fez quando a crise das terras estourou?

O silêncio do outro lado foi pesado. Quando Alberto voltou a falar, sua voz estava despida de qualquer afeto familiar.

— Seu pai não foi o avalista de uma conspiração, Elias. Ele foi o executor. Ele roubou aquela relíquia de um acervo privado para pagar as dívidas que o levaram à ruína. Não foi uma falha moral. Foi um crime comum. O que você está carregando por aí não é um legado, é a prova do roubo que ele escondeu sob uma fachada de dignidade.

Elias sentiu o chão girar. A honra que ele tentara proteger era um castelo de cartas sobre a lama. Ao desligar, viu Beatriz encarando-o com uma expressão de pena que ele detestava. Ela girou o monitor. O feed de Lucas não exibia apenas a relíquia; ele transmitia documentos digitalizados da conspiração de 1994, com a assinatura do pai de Elias circulada em vermelho neon. Comentários subiam como uma maré negra: "O filho do golpista quer esconder a verdade".

— Ele está usando a história do seu pai para justificar o leilão — disse Beatriz, a voz cortante. — Ele sabe exatamente onde estamos. O sinal que eu tentei forçar serviu de farol.

Um som metálico ecoou vindo do corredor. Passos pesados, ritmados. Seguranças do museu, agindo sob as ordens de Lucas, haviam invadido o perímetro. Beatriz tentou apagar os arquivos, mas a tela congelou. O cerco havia se fechado. Elias agarrou a relíquia, mas Beatriz empurrou-o para o duto de ventilação atrás da bancada.

— Vai! — ela gritou, enquanto a porta da central era arrombada. — Eles precisam de mim para decodificar a inscrição, eles não vão me machucar agora. Mas você precisa sumir com a prova.

Elias hesitou, vendo os seguranças avançarem sobre Beatriz. O peso da relíquia em seu bolso era uma âncora de culpa. Ele se arrastou pelo duto, ouvindo o grito de Beatriz ser abafado pelo som da chuva. Ele estava sozinho, sem dinheiro, sem aliada, e com o tempo correndo contra uma verdade que ele desejava nunca ter descoberto.

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