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Chapter 5: Arquivos Fantasmas

Júlia acessa o terminal do subsolo da 4ª Delegacia e descobre que o pai de Elias foi a primeira vítima do protocolo Substituição de Narrativa, calibrado para encobrir crimes de Rocha. Ela vê vídeo da extração de memórias do pai de Elias pelo relicário, revelando que o dispositivo não apenas rastreia, mas extrai memórias biométricas. Câmeras recém-instaladas a seguem, expondo sua presença interna. Ao sair, ela confronta Elias com a verdade, e o contador despenca drasticamente devido à exposição adicional causada pelo acesso não autorizado.

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Arquivos Fantasmas

Júlia encostou o crachá no leitor da porta blindada do subsolo. O bipe veio seco, a luz vermelha piscou duas vezes antes de virar verde. Restavam 34 segundos de validade. O cheiro de mofo e ozônio queimado invadiu as narinas assim que a porta se abriu. Ela entrou rápido, o drive externo batendo contra o osso do quadril.

No fone minúsculo, a voz de Elias soou abafada, fingindo conversa casual no térreo. — Dois técnicos de TI descendo. Sete minutos no máximo. Talvez menos.

Ela foi direto ao terminal central — o único que ainda aceitava login nível 3 sem biometria facial atualizada. Sentou na cadeira de rodinhas quebrada, dedos gelados no teclado. Digitou a senha antiga. A tela piscou. Diretórios de 2015 surgiram. Três segundos. O contador no canto superior direito saltou: 139 horas e 58 minutos restantes.

Abriu a pasta L0B-2015. Uma pasta que o sistema jurava ter sido deletada em 2016.

Ignorou o alerta âmbar: Auditoria em andamento – registro será rastreado. Precisava de um nome. Só um.

Cursor parou em Substituição de Narrativa – Primeira Entrada. O nome do pai de Elias aparecia como vítima zero. Status: Apagado. Assinatura digital no rodapé: Comissário Rocha. O mesmo Rocha que hoje coordenava a caçada ao vivo contra eles no Feed.

Júlia engoliu seco. Não era falha técnica. O sistema não eliminou o homem — reescreveu a família inteira como traidora nacional para encobrir o que Rocha fez dez anos atrás. O trauma que Elias carregava não era acidente. Era o teste inicial do protocolo que agora os perseguia.

— Elias… — sussurrou no microfone. — Seu pai foi o primeiro. Calibraram o sistema na dor da sua família.

Silêncio pesado do outro lado. Só respiração entrecortada.

O contador caiu para 139 horas e 41 minutos.

Ela clicou em Biométrico – Extração 0-Beta. A barra de carregamento subiu lenta. Vídeo granuloso. Cores mortas.

Um homem algemado numa cadeira de metal. O pai de Elias. Olhos fundos, idênticos aos do filho. Um técnico de jaleco aproximou o relicário prateado — o mesmo que Elias carregava agora — e encaixou na têmpora. Clique seco. O corpo arqueou. Boca aberta num grito mudo. Olhos rolaram para trás enquanto algo era sugado para dentro do dispositivo. Contador na tela: Extração 94%… 98%… 100%.

Ícone vermelho piscou: ALARME SILENCIOSO – ACESSO NÃO AUTORIZADO.

O comunicador chiou. — Júlia, viaturas na rua lateral. Armados. Menos de noventa segundos.

Ela arrancou o drive da porta USB com tanta força que o cabo quase quebrou. Deu um tapa no monitor. A tela morreu, mas a imagem do rosto esvaziado ficou grudada na retina.

— Não é só rastreador… — voz cortada. — É um moedor de memórias.

Desceu a escada de serviço correndo. O metal rangia sob os tênis. No patamar entre o terceiro e o segundo subsolo parou. A lâmpada de emergência piscava amarela. Deveria estar escuro ali embaixo — o circuito secundário fora cortado em 2018. Mas três pontos vermelhos brilhavam no corredor à frente. Um no alto, outro na altura do peito, um terceiro quase no chão. Piscando em sequência.

— Elias… as câmeras estão ligadas. — Impossível. Você disse que foram desativadas em 2018. — Estão ligadas agora. Me seguem.

Ela recuou um passo. O ponto vermelho mais baixo acompanhou. Depois o do meio. Depois o de cima. Três lentes novas, trabalhando em conjunto. O último restinho de anonimato evaporou.

Correu para a saída de emergência lateral oeste. O comunicador chiava estática. — Saída livre por enquanto. Viaturas ainda na frente. Anda.

Chegou à grade enferrujada. Empurrou a barra de pânico. A porta rangeu e abriu para a rua estreita. Elias estava do outro lado, capuz puxado, rosto pálido sob a luz fraca do poste. Antes que ele pudesse falar, Júlia atravessou a grade e disse, voz afiada quase quebrando:

— Eles estão nos vendo, Elias. Não só o Feed. Aqui dentro. O sistema inteiro.

Ele olhou por cima do ombro dela, para o corredor escuro. Um ponto vermelho minúsculo piscou na lente recém-instalada na parede interna, fixo nele agora. Seus olhos se arregalaram.

— Eles nunca desligaram nada…

O contador no celular de Elias vibrou alto. A tela mostrou: 137 horas e 12 minutos restantes.

A exposição de Júlia acabara de custar quase duas horas e meia do prazo.

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