Zona de Exclusão
O zumbido do drone de Rafael Coutinho não era um som; era uma contagem regressiva em 4K. Lucas Mendes saltou da janela dos fundos da casa de Tia Lurdes, o impacto do solo úmido do subúrbio carioca contra seus joelhos enviando um choque de dor que ele ignorou. Acima, a luz vermelha de gravação cortava a neblina. Ele era o vilão da noite, o homem que Lurdes, sua própria carne, entregara ao tribunal das redes sociais. O cronômetro no Feed de seu celular, preso com fita isolante no antebraço, marcava cinco dias e doze horas. Cada passo era rastreado, vendido e monetizado pelo algoritmo de Rafa.
Ele apertou o relicário contra o peito. A peça pulsava com um calor artificial, um rastro constante que o impedia de desaparecer. Ao passar por um poste de luz inteligente, Lucas arrancou a tampa da base com uma chave de fenda, conectando o relicário aos fios de cobre. Houve um estalo azulado, um curto-circuito que mergulhou o quarteirão em trevas e derrubou o drone em uma explosão de faíscas. Ele correu na escuridão, mas o custo estava pago: sua localização exata fora transmitida para milhares antes do apagão.
Ao chegar ao perímetro do hospital, o cenário era de um cerco medieval. A fachada brutalista parecia uma fortaleza sob o cerco de fãs de Rafa, que seguravam celulares como velas votivas. Lucas observou de trás de um contêiner enquanto dois seguranças arrastavam a Dra. Helena Vargas para fora. O crachá dela fora arrancado; sua expressão era de uma derrota catatônica. No momento em que a empurraram para um carro preto, seus olhos encontraram os de Lucas. Ela não disse nada, mas sua mão, escondida na dobra do jaleco, deslizou um cartão de acesso de emergência para o chão. Lucas o apanhou antes que ela fosse levada, sentindo o peso do sacrifício: Helena era agora uma pária, e ele estava sozinho.
Lucas infiltrou-se pelo duto de ventilação, o cheiro de ozônio e desinfetante vencido tornando-se sufocante. Ao cair no piso da sala de servidores, o zumbido das máquinas era a única resposta. Ele conectou o relicário ao console central. O dispositivo vibrou, reconhecendo o hardware. O monitor brilhou com uma sequência de códigos: a lista de pacientes fantasmas. O nome de sua mãe estava lá, gravado como uma dívida impagável. Antes que ele pudesse copiar os dados, um alarme soou. As portas de acesso travaram. Ele estava isolado no coração técnico do hospital.
O cursor na tela começou a se mover sozinho. O sistema de Rafa Coutinho não estava apenas detectando sua intrusão; estava executando um protocolo de purga. Lucas assistiu, horrorizado, enquanto os registros de pacientes reais — prontuários de erros médicos, datas de óbitos forjados — eram substituídos por códigos de erro genéricos. O hospital não estava sendo desativado; estava sendo limpo para se tornar um centro de processamento de dados falsos. O servidor central começou a apagar os registros de pacientes reais em tempo real, incinerando a verdade enquanto Lucas, desesperado, tentava forçar o download. A cada segundo, a prova da existência de sua mãe desaparecia, deixando para trás apenas a estática de um Feed que logo tornaria aquela mentira permanente.