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Chapter 1: O Relicário de Cinzas

Lucas Mendes invade um arquivo hospitalar interditado e recupera um relicário selado, apenas para descobrir que o objeto é um dispositivo de rastreamento social. O streamer Rafa Coutinho inicia uma contagem regressiva de seis dias em uma livestream, expondo Lucas. Lucas confronta a arquivista Helena Vargas, que lhe entrega uma chave mestra, selando o destino de ambos como alvos do sistema.

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O Relicário de Cinzas

O ar no subsolo do Hospital Público Central não circulava; ele pesava. Lucas Mendes ajustou a máscara cirúrgica, sentindo o tecido úmido grudar na pele enquanto seus dedos, enluvados e trêmulos, tateavam a lateral do Gabinete 402. O setor de arquivos mortos fora interditado para demolição, mas o silêncio ali não era de abandono, era de espera. A lanterna de seu celular cortou a penumbra, revelando a vedação de cera negra que mantinha o gabinete trancado. Não era um selo burocrático; era um aviso. O cheiro de ozônio e desinfetante vencido era um lembrete biológico de que ele estava em território proibido.

Sua mão hesitou. Quebrar aquele lacre não era apenas uma invasão; era o fim de sua tentativa de invisibilidade. Ele pensou no linchamento digital que destruíra sua carreira, na humilhação pública que transformara seu nome em sinônimo de fraude. A verdade era sua única moeda, mas o custo de trocá-la estava subindo a cada segundo. Com um movimento seco, ele forçou a trava. O metal cedeu com um estalo orgânico, e a cera negra estilhaçou-se no chão de concreto como vidro temperado.

Dentro do gabinete, envolto em um pano de veludo surrado, repousava o relicário. Não era uma peça de museu, mas um dispositivo de rastreamento social: uma caixa de metal escuro, gravada com inscrições em latim que pareciam pulsar sob a luz. Assim que Lucas tocou a superfície fria, o ar pareceu denso, carregado com uma eletricidade estática que fez os pelos de seus braços se eriçarem. Seu celular, escondido no bolso, explodiu em uma vibração frenética. Ele puxou o aparelho. Não era uma mensagem comum. Era um link direto para a livestream de Rafael “Rafa” Coutinho, o autodenominado “caçador de farsas”. Na tela, o rosto de Rafa, iluminado por luzes de neon azuladas, preenchia todo o visor.

“A contagem começou”, disse o streamer, olhando diretamente para a câmera, como se visse Lucas através da lente. “O relicário foi aberto. Seis dias antes do Feed tornar o segredo permanente. Você tem coragem, Lucas Mendes, mas a verdade não vai te salvar.”

Lucas sentiu o sangue fugir de seu rosto. O relicário não era uma relíquia; era um farol. Ele correu para a sala da administração, o coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. A Dra. Helena Vargas estava sentada atrás de uma mesa de metal, os dedos rígidos sobre um teclado. Lucas empurrou a porta, jogando o objeto sobre a mesa. O som seco contra a fórmica fez Helena sobressaltar-se.

— O arquivo do setor quatro foi violado, Helena. E eu sei que você deixou a porta destrancada — disparou Lucas, invadindo o espaço pessoal dela. — O hospital está enterrando mortes ou enterrando provas? O nome do seu irmão está na lista de óbitos de três anos atrás. O mesmo erro que o sistema apagou das telas.

Helena travou. A menção ao irmão foi o golpe que quebrou a máscara burocrática. Ela olhou para a porta, depois para as câmeras de segurança, seus olhos úmidos e cheios de um pavor contido.

— Você não deveria ter tocado nisso, Lucas. Isso não é um histórico médico. É um marcador de dívida. Se você abriu, você já está no radar deles. O Feed não perdoa quem tenta desenterrar o passado.

— Eu não tenho mais nada a perder — Lucas retrucou, sua voz baixa e urgente. — Me dê a chave mestra dos arquivos históricos. Se a verdade sobre o que aconteceu naquela ala não sair, o Feed vai reescrever a história do seu irmão como se ele nunca tivesse existido.

Helena hesitou, a mão tremendo sobre a gaveta trancada. O zumbido do ar-condicionado parecia aumentar, uma sinfonia de falhas mecânicas. Ela finalmente puxou uma chave de metal antigo e a empurrou em direção a Lucas, o rosto pálido sob a luz fluorescente.

— Pegue. Mas entenda uma coisa, Lucas: se abrirmos isso, não somos mais funcionários, somos alvos. O Feed tornou o escândalo uma verdade pública irreversível. A partir de agora, estamos correndo contra o tempo, e o tempo não é nosso aliado.

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