A Licitação Fraudada
O martelo de mogno desceu, não com a elegância de um encerramento, mas com a brutalidade de uma sentença. O som seco contra o veludo do púlpito silenciou o Salão Lemos. Beatriz, as mãos firmes sobre a madeira, acabara de expor a farsa: o dragão de jade imperial era uma peça de resina industrial. O choque na plateia foi absoluto, um vácuo de som antes da tempestade de murmúrios.
Arthur Valente observava das sombras laterais. Ele viu Ricardo “O Tubarão” Gusmão tentar um gesto de desdém, um sorriso forçado que não alcançava os olhos. Era inútil. Os investidores, antes submissos ao poder do magnata, agora se moviam como uma maré negra, cercando-o. O dossiê de Beatriz não apenas revelava a falsificação; ele expunha a rede de licitações públicas que servia de fachada para a lavagem de dinheiro de Gusmão.
— Você não tem provas, Beatriz! Isso é suicídio comercial! — Gusmão rosnou, a voz perdendo a polidez habitual. Seus seguranças, homens de ombros largos e ternos caros, tentaram abrir caminho, mas a multidão não recuou. O medo do prejuízo superava o medo do Tubarão.
Arthur interceptou o magnata antes que ele alcançasse a saída. Não houve gritos. Arthur parou a poucos centímetros do líder da segurança, um homem cujo rosto era uma máscara de tensão. O silêncio de Arthur era mais pesado que qualquer ameaça. Com um movimento fluido, quase imperceptível, ele desarmou o agressor e sussurrou algo que fez o homem empalidecer e recuar instantaneamente. A lealdade paga de Gusmão evaporou diante da autoridade gélida de quem não estava ali para negociar, mas para cobrar.
Minutos depois, o carro de Arthur cortava o tráfego em direção ao centro financeiro. Ao seu lado, o emissário da Sombra, um homem de terno impecável e olhar desprovido de humanidade, mantinha as mãos sobre os joelhos.
— O dossiê não é seu brinquedo, Valente — disse o emissário, a voz nivelada. — A organização quer saber se você está pronto para servir ou se prefere ser o próximo alvo na lista de queima de arquivo.
Arthur não desviou o olhar da estrada. No retrovisor, dois veículos pretos fechavam o cerco, forçando-o a reduzir a velocidade. A pressão no carro tornou-se física, um ar rarefeito que exigia foco absoluto.
— Vocês se acham arquitetos do caos — Arthur murmurou, a voz carregada de uma eletricidade perigosa — quando não passam de zeladores da sujeira. A Sombra não quer me eliminar. Eles precisam de alguém para limpar a corrupção que vocês mesmos permitiram em troca de dividendos.
Ele girou o volante bruscamente, forçando os carros da Sombra a frearem. Arthur não estava ali para o convite. Ele desviou a rota, ignorando a sede da organização, e acelerou em direção ao escritório privado de Gusmão.
O ambiente cheirava a couro e desespero. Arthur entrou sem ser anunciado, seus passos silenciosos sobre o carpete persa ignorando a opulência. Ele ignorou as obras de arte e focou no painel atrás da mesa. O sistema de segurança biométrico era uma fortaleza digital, mas Arthur não era um ladrão comum. Ele inseriu a chave física — uma peça de metal austera, gravada com o selo que recuperara no leilão — na fenda oculta sob a moldura do quadro. O clique do mecanismo soou como um tiro.
O painel deslizou, revelando o dossiê de couro fosco. Ao tocar nos papéis, Arthur sentiu o peso da justiça. Ali estava a assinatura do político que, anos atrás, selara seu destino com uma traição covarde. No instante em que o documento foi removido, uma luz vermelha pulsou no teto, banhando a sala em um tom escarlate de urgência. O alarme disparou, um uivo estridente que anunciava sua posição. O som de botas táticas batendo contra o mármore no andar de baixo ecoou pelo corredor. Ele tinha segundos antes que a segurança armada invadisse a sala.