O Leilão da Discórdia
O café no centro histórico cheirava a grãos torrados e desespero. Beatriz tamborilava as unhas na mesa de fórmica, um ritmo errático que marcava os segundos restantes. Arthur, sentado à sua frente, era uma estátua de contenção. Ele não bebia o café; ele observava o movimento da rua, onde a fachada da empresa familiar já exibia a placa de "Leilão Judicial".
— Você está paralisada, Bia — disse Arthur. Sua voz não era um conselho, era um diagnóstico. — O medo é um luxo que você não pode mais se permitir.
Beatriz soltou uma risada seca, os olhos marejados fixos no envelope pardo sobre a mesa.
— Eles controlam o conselho, o leiloeiro e a própria lei, Arthur. Viana não está apenas comprando nossos ativos; ele está apagando nossa existência. Estamos mortos antes de começar.
Arthur inclinou-se. O movimento foi mínimo, mas o suficiente para que o ar ao redor da mesa parecesse rarefeito. Ele não pediu atenção; ele a tomou.
— A lei é uma ferramenta, não um destino. Eu tenho a assinatura de Ricardo Viana no prontuário de Mariana. Isso não é apenas uma prova; é uma alavanca. Se você não agir agora, a ruína será o único legado que restará.
Beatriz hesitou, a mão trêmula sobre a bolsa. Ela deslizou o envelope lacrado. Dentro, o cronograma: o leilão fora antecipado para daqui a quarenta e oito horas. Arthur abriu o documento. Seus olhos, treinados em décadas de estratégia, mapearam a fraude em segundos. Não eram lances de mercado; eram empresas de fachada, um teatro jurídico desenhado para transferir as terras da família para Viana por uma fração do valor real.
— Eles não estão apenas liquidando a empresa — murmurou Arthur. — Estão limpando o rastro da morte de Mariana.
O silêncio foi estilhaçado por um estrondo. A porta do escritório foi aberta com violência. Dois homens de terno barato, com a postura predatória de cobradores de Viana, invadiram o local. O mais alto chutou uma cadeira, fazendo o barulho ecoar pelas paredes descascadas.
— Viana mandou um recado — disse o homem, os olhos percorrendo o cubículo com desprezo. — O prédio já foi avaliado. Se não estiverem fora até o fim do dia, a segurança fará o despejo. A empresa é um cadáver. Parem de tentar ressuscitar o que já apodreceu.
Beatriz levantou-se, a indignação lutando contra o pânico. Arthur, contudo, permaneceu sentado. Ele não gritou. Ele apenas puxou o documento com a assinatura de Viana e o colocou sobre a mesa, expondo o selo do hospital. A arrogância dos homens vacilou, substituída por uma confusão cautelosa.
— Digam ao seu mestre — Arthur disse, a voz gélida — que ele tem quarenta e oito horas para escolher entre a liquidação da minha família ou a sua própria ruína pública. O leilão não será o palco da nossa queda, mas o da sua queda definitiva.
Os homens recuaram, o peso da evidência física sendo mais intimidador do que qualquer grito. Quando a porta se fechou, Beatriz olhou para Arthur, o fôlego curto.
— Eles não vão recuar. Viana é capaz de tudo.
— Que bom — respondeu ele, olhando para o relógio. — Eu também.
No dia do leilão, o salão da Viana Corp exalava o cheiro de colônia cara e a expectativa predatória de uma elite que aguardava a carcaça ser esquartejada. Arthur permaneceu nas sombras da entrada. Ricardo Viana, impecável, gesticulava com a arrogância de quem já se considerava dono de tudo. O leiloeiro ditava o ritmo da pilhagem.
— Lote quarenta e dois: as terras da fazenda Santa Cecília. Lance inicial de cinco milhões. Quem dá mais?
Arthur sentiu o peso do envelope no bolso interno. Ele caminhou pelo corredor central. O som de seus passos, firmes e ritmados, cortou o burburinho da multidão. O riso de um investidor próximo morreu ao encontrar o olhar gélido de Arthur. Ele subiu os degraus do palco com uma calma que fez o leiloeiro hesitar. O martelo parou no ar, suspenso pela autoridade silenciosa do homem que viera cobrar o preço de uma vida.