O Jogo de Espelhos
O saguão do leilão privado da Corporação Superior não era um lugar de negócios; era um altar de sacrifício. O ar condicionado, mantido em uma temperatura que forçava os convidados a se envolverem em casacos de lã e seda, servia para conservar o prestígio da elite paulistana. Arthur, camuflado sob a identidade de um consultor de investimentos suíço, observava o movimento. Ele não estava ali para comprar jade, mas para colher a cabeça do homem que o ensinara a manipular o mercado antes de descartá-lo como lixo.
Na entrada da área restrita, Viana, o auditor, mantinha a postura rígida de um homem que sentia a corda no pescoço. Arthur passou por ele, o perfume caro de seu terno falso mascarando o cheiro de ozônio dos servidores próximos.
— Se você quer manter sua licença e sua liberdade, não pisque quando eu passar pelo scanner — murmurou Arthur, a voz baixa como o corte de uma lâmina.
O auditor assentiu, o suor frio brilhando em sua têmpora. Quando Arthur aproximou a mão do painel, o dispositivo de clonagem biométrica — uma tecnologia que ele mesmo ajudara a desenvolver sob a tutela do Arquiteto — replicou a assinatura de acesso de Viana. A luz do painel mudou de vermelho para um verde autoritário. O segurança da Corporação, um homem cujos olhos vazios refletiam apenas o protocolo, recuou. Arthur entrou no coração da fortaleza.
O cofre central era um ambiente de silêncio metálico. Arthur ignorou o luxo das paredes de mogno e foi direto ao terminal. Seus dedos dançavam sobre o teclado, desativando camadas de segurança que ele conhecia como a palma da mão. Quando o 'Livro de Registros' se abriu, a verdade saltou da tela com a frieza de uma sentença. Os padrões de fraude, as assinaturas digitais ocultas e a arquitetura dos desvios offshore eram idênticos aos que o Arquiteto usara para exilá-lo anos atrás.
Ele clicou em um dossiê e uma nota de rodapé surgiu, marcada pela caligrafia inconfundível que ele reconheceria em qualquer lugar. O Arquiteto não era apenas o mentor; ele era a mente por trás da Corporação Superior. A traição que custara a honra de Arthur não fora um acidente; fora um projeto de eliminação calculado. O peso do pen-drive contendo a prova documental contra sua costela era um lembrete físico: faltavam quarenta e oito horas para a audiência no Comitê de Arbitragem. A contagem regressiva para o acerto de contas pessoal havia começado.
O silêncio foi rompido pelo som de botas táticas no mármore. Três seguranças de elite surgiram no corredor.
— Arthur — disse o líder, a voz destilando uma frieza corporativa. — Você está violando um protocolo de acesso privado. Entregue o dispositivo ou o Comitê terá um problema de inventário a menos.
Arthur avaliou a disposição dos sensores de teto. Ele não podia lutar por força bruta sem comprometer a prova. Com um movimento ágil, ele disparou um pulso eletromagnético no painel de supressão de incêndio. O sistema entrou em colapso, liberando uma densa nuvem de supressor químico que inundou o corredor. No caos da visibilidade zero e alarmes ensurdecedores, Arthur desapareceu nas sombras. Ele sabia que a Corporação agora o via como uma ameaça existencial, e que o Arquiteto, em algum lugar no topo da pirâmide, finalmente sentia o gosto da caçada.