O Dilema do Sobrevivente
O ar no Terminal Central do terceiro andar tinha gosto de ozônio e metal queimado. O Sucata-V estremeceu, uma vibração que subia pelos joelhos de Kaelen, ameaçando estilhaçar os atuadores hidráulicos já sobrecarregados. O cronômetro holográfico, flutuando à esquerda de sua visão, piscava em um vermelho agressivo: 01:15:00. O tempo para o resgate de sua família não era apenas um número; era um veredito.
— Você não vai conseguir sair daqui — a voz de Valéria soou pelo canal aberto, desprovida da arrogância de outrora. Ela estava encolhida atrás de um pilar de contenção, observando a silhueta que emergia das sombras. — O Executor não é uma falha de sistema. É uma purga de classe. Ele não negocia.
Do teto, descendo por cabos de energia que faiscavam, o Executor desceu. Era uma carcaça de cromo polido, sem rosto, equipada com lâminas de plasma que cortavam o ar como navalhas. Não tinha ranking, não tinha nome; apenas a diretriz absoluta de apagar a 'Anomalia Classe-0'. O sistema de drenagem vital do Sucata-V apitou, um som estridente que significava que a Torre estava sugando a energia de Kaelen para alimentar a purga.
Kaelen sentiu seus pulmões queimarem. Ele precisava de energia, e a única fonte era a rota proibida: o hack de realimentação. — Eu não vim aqui para negociar — Kaelen rosnou, forçando o Sucata-V a avançar contra o Executor. Ele sobrecarregou o núcleo, redirecionando o fluxo de drenagem de volta para seus próprios atuadores. O choque de energia foi como vidro moído correndo em suas veias, mas o mech ganhou um brilho neon instável. Ele atingiu o Executor com um soco cinético que estilhaçou o piso de metal, forçando a máquina a recuar.
— Valéria! — Kaelen gritou, ignorando o sangue que escorria de seu nariz. — A rota de acesso! Agora!
Valéria hesitou, seus olhos fixos na destruição que Kaelen causava. Ela sabia que, ao ajudá-lo, estaria selando seu próprio destino como fugitiva da corporação. Mas, ao olhar para a carnificina, algo mudou. Ela não era mais a representante da elite; era apenas uma sobrevivente em um sistema que a descartaria como dano colateral. Com um movimento rápido, ela acessou o terminal de linhagem, forçando os sensores da Torre a identificarem Kaelen como um 'Administrador de Emergência'.
As portas de transição do quarto andar se abriram com um gemido metálico. O Executor, momentaneamente confuso pela assinatura de autoridade falsa, hesitou. Kaelen não perdeu tempo. Ele agarrou Valéria e, com um salto impulsionado pela energia drenada, atravessou o limiar para o quarto andar.
Ao aterrissarem no Centro de Extração, o cenário era um pesadelo industrial. Tubos gigantescos sugavam energia de cápsulas de contenção, alimentando o núcleo da Torre. O Executor os seguiu, atravessando a barreira como se fosse papel.
— Kaelen, o sistema de purga não vai parar! — Valéria gritou, sua voz cortada pela estática. — Ele está rastreando sua assinatura. Se você não sair, vai ser transformado em combustível puro.
Kaelen olhou para o cronômetro: 01:19:42. O tempo para o resgate de sua família no Setor 4-B era um chicote estalando em suas costas. Ele não podia recuar. Ele sobrecarregou o núcleo do seu mech, injetando o código do mentor na estrutura central do andar. O sistema da Torre começou a colapsar em torno deles, as luzes neon piscando em um ritmo caótico. O Executor avançou para o golpe final, mas Kaelen estava pronto. Ele liberou toda a energia acumulada, uma onda de choque que não apenas repeliu a máquina, mas iniciou a autodestruição do centro de extração. O ar explodiu em uma onda de choque neon, inundando os sistemas de Kaelen com energia bruta. Ele estava mais forte, mas o tempo estava acabando. A corporação enviou o executor final. A batalha de verdade começava agora.