O Novo Horizonte
O ar no Piso 0-A não cheirava a ozônio ou desinfetante. Era um vácuo gélido, carregado com uma pressão estática que fazia os dentes de Leo vibrarem. Ele caiu de joelhos, o impacto da transição rasgando o que restava de sua resistência. Sua interface, antes uma cascata organizada de métricas de ranking, agora tremeluzia como uma lâmpada prestes a queimar.
Energia Vital: 12%.
O número vermelho pulsava em sua retina. Sem o suporte da Academia, ele era um náufrago. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo tique-taque agressivo de um novo cronômetro: 00:39:58 para o fechamento do portal. Leo tentou acessar o diretório de habilidades, mas a tela se recusou a abrir. Em vez disso, o sistema projetou um mapa rudimentar de linhas de energia bruta. A Academia, ele percebeu com um calafrio, nunca fora o objetivo. Era apenas um moedor de carne, um filtro projetado para selecionar os poucos que seriam descartáveis o suficiente para sobreviver ao verdadeiro jogo.
— Você conseguiu — a voz de Sofia ecoou, vinda da penumbra do portal. Ela caminhava com dificuldade, a postura de herdeira curvada pela exaustão. — Vane foi deletado. O sistema o apagou como um erro de sintaxe.
Leo forçou-se a levantar, apoiando-se em um pilar esculpido com runas que não constavam nos manuais da Academia. Ele não sentia triunfo, apenas a pressão gélida do tempo escorrendo por entre seus dedos.
— Ele não foi deletado por nós, Sofia — Leo respondeu, a voz rouca. — Ele foi descartado pela Torre. Agora que o ranking oficial caiu, a Torre não precisa mais de guardiões. Ela precisa de combustível.
Sofia parou ao lado dele, observando a vastidão do novo andar. Ela levou a mão ao pulso, onde o selo de sua linhagem deveria brilhar. A marca estava cinza, inerte. — Minha linhagem foi deserdada automaticamente — ela confessou, a voz trêmula. Eles não eram mais estudantes de elite; eram anomalias em um sistema que os via como lixo processável.
Leo tocou o pilar central. A interface explodiu em dados brutos. O Piso 0-A não era apenas um andar; era um centro de processamento, uma forja onde o tempo era destilado em poder puro.
'Erro de autoridade detectado', a voz fria do Sistema reverberou. 'Protocolo de expurgo iniciado.'
O ambiente distorceu. O rastreamento residual de Vane se fechou sobre sua posição como uma mandíbula de ferro. Leo sentiu o peso da autoridade institucional tentando deletar sua existência. Ele não lutou; ele se fundiu. Com um movimento deliberado, injetou seu próprio tempo de vida como ruído estático na rede. Foi um risco suicida — converter sua sobrevivência em camuflagem — mas funcionou. A assinatura de Vane passou direto, ignorando a anomalia que se escondia em plena vista. O Sistema, privado de seu administrador, hesitou. Leo sentiu um ganho súbito: Nível de Adaptação: +1.
— A Academia era o cercadinho — disse Leo, olhando para o topo da Torre, onde a estrutura se perdia em uma neblina de dados proibidos. — Eles queriam que nos matássemos por migalhas enquanto sugavam a energia da fundação. Agora, a regra mudou. A Torre não quer mais nossa obediência. Ela quer nossa conquista.
O portal atrás deles piscou, instável. O jogo de sobrevivência terminara. O jogo de conquista estava apenas começando.