A Torre se Abre
O ar na Arena Central da Academia não era mais o de um campo de treinamento; era o de uma carcaça em decomposição. O placar holográfico, o monólito que definia o valor de cada aluno, estilhaçou-se em pixels mortos, deixando um silêncio absoluto, interrompido apenas pelo estalo de placas de circuito fritando. Leo caiu de joelhos, o peso da 'Quebra de Limite' drenando sua medula. Cada respiração era um esforço consciente contra a exaustão que ameaçava apagar sua consciência.
— O sistema caiu, Leo. Vane perdeu o controle — a voz de Sofia ecoou, cortando o caos. Ela estava próxima, o rosto pálido sob a luz bruxuleante das torres de energia que colapsavam. A prodígio intocável, antes definida por sua linhagem, agora parecia confrontada com a insignificância de tudo o que a cercava. Ela não o atacou; interceptou um cadete oportunista com um movimento ágil de lâmina, protegendo o homem que acabara de desmantelar o mundo dela.
No pódio, o Diretor Vane tremia sob uma descarga de eletricidade estática azulada. O homem que detinha a autoridade absoluta tentava, com dedos trêmulos, reconectar sua interface pessoal ao núcleo da Torre.
— Você não entende, garoto! — a voz de Vane, antes polida, agora soava como vidro quebrado. — Sem o meu controle, a energia desta rede vai consumir tudo. Você não é um salvador, é um erro de cálculo que acabou de condenar todos nós!
Vane pressionou as mãos contra o painel, os dedos afundando em um brilho púrpura que não era dele. A Torre reagia ao administrador caído como uma falha de sistema. A pele de Vane começou a adquirir a mesma tonalidade digital da interface, enquanto seus gritos eram abafados por um zumbido de baixa frequência. Leo não hesitou. Com o resto de sua energia vital, ele avançou e inseriu sua própria assinatura no terminal. O sistema reconheceu a anomalia. Ele não apenas expôs os registros da purga de Vane; ele forçou o sistema a purgar o próprio Diretor.
O teto da Arena se desintegrou em fractais de luz. O cronômetro flutuante, implacável, surgiu diante de Leo: 00:39:58 para o fechamento do portal de acesso ao Piso 0-A.
— Isso não é uma graduação — Sofia murmurou, observando a estrutura colossal que se revelava acima deles. — A Academia era um playground. Aquilo lá em cima... é o mundo real.
O Sistema não pediu permissão; exigiu tributo para estabilizar a nova passagem. A infraestrutura da Academia — geradores, campos de força, a própria rede que mantinha a estabilidade dos alunos — começou a ser drenada. Leo sentiu o custo. Ele aceitou. Ao drenar a Academia, ele estabilizou sua própria forma, tornando-se o único sobrevivente capaz de cruzar a fenda.
Ao atravessar o portal, o impacto contra o solo do Piso 0-A foi como um soco. A pressão gravitacional fez seus ossos estalarem. O ambiente era uma vastidão industrial de engrenagens colossais e correntes que subiam até o infinito. Alertas frenéticos disparavam em sua visão periférica: [AVISO: Nível de oxigenação exótico. Adaptação necessária.] [ERRO: Reserva de energia vital em 12%.]
Leo não era mais um Nível Zero; ele era um erro de sistema em um ambiente que não perdoava iniciantes. Ele olhou para o topo da Torre, onde a estrutura se perdia em uma névoa de dados e poder puro. O cronômetro para o próximo desafio começou a correr. O jogo de sobrevivência na Academia acabara de ser substituído por algo muito mais letal: a conquista da Torre.