A Verdade no Metal
O ar no Nível 2 não tinha cheiro de ozônio ou metal quente; tinha cheiro de decomposição industrial. O Sucata-09 tremia, seus estabilizadores lutando contra a gravidade artificial instável deste setor esquecido. Kael observava o painel de controle, onde a barra de dívida, antes um número estático, agora pulsava em um vermelho agressivo. O sistema não estava apenas cobrando juros; ele estava drenando a energia do núcleo para alimentar a ascensão dos andares superiores.
— Então é assim que vocês mantêm o brilho lá em cima — Kael murmurou, a voz rouca pelo esforço. Seus dedos, cobertos pela graxa negra que parecia nunca sair, deslizavam pelo terminal modificado. Ele injetou o código de acesso que herdara de seu mentor. O sistema da Torre reagiu instantaneamente, tentando bloquear o acesso, mas Kael foi mais rápido. Ele forçou uma sobrecarga no dissipador de calor Classe-B, desviando o excesso de energia para a decodificação do fragmento de memória.
O cockpit iluminou-se com dados brutos. Não eram apenas estatísticas de combate; eram registros contábeis. A dívida de cada piloto, cada crédito que Kael lutara para pagar, era convertida em energia pura e enviada para o topo. A morte de seu mentor não fora uma falha técnica; fora uma execução orquestrada para evitar que a verdade sobre a colheita fosse revelada.
Um alerta de proximidade cortou o silêncio. Um sucateiro, um sobrevivente com o corpo quase inteiramente substituído por peças de reposição baratas, emergiu das sombras de uma carcaça de mech gigante.
— Você não deveria estar aqui, garoto — o homem disse, a voz soando como metal raspando em pedra. — Os Enforcers já marcaram sua assinatura térmica. Você é um erro que o sistema vai apagar antes do amanhecer. Lívia Aço não vai tolerar uma falha no ranking que ela não pode controlar.
— Deixe que venham — Kael respondeu, sem desviar os olhos dos dados que continuavam a fluir. Ele precisava salvar aquilo. Se o mundo visse a contabilidade da Torre, o sistema entraria em colapso.
De repente, o painel do Sucata-09 entrou em curto. O algoritmo de ranking da Torre, detectando a exfiltração de dados, iniciou uma manobra de retaliação. O motor principal começou a superaquecer, forçado pelo sistema a uma falha crítica. Kael sentiu o calor subir pelo assento, um aviso térmico que ameaçava transformar o cockpit em um forno. O sistema não estava apenas caçando-o; estava tentando desintegrar seu mech peça por peça.
Kael agarrou os controles, sentindo a vibração do metal protestando contra a pressão. Ele tinha a prova, mas o preço de mantê-la era sua própria sobrevivência. O cronômetro de reciclagem fora substituído por algo pior: um status de alvo de alta prioridade. Ele estava no Nível 2, cercado por fantasmas de metal, e o sistema estava fechando o cerco. Ele precisava de uma saída, mas cada segundo ali custava o triplo da taxa de manutenção. O jogo mudara: não era mais sobre subir no ranking, era sobre sobreviver à própria estrutura que ele jurara destruir.