A Máscara de Ferro
O gosto metálico de sangue inundou a boca de Kael. Não era apenas exaustão; era a falência biológica batendo à porta. Na retina, o Sistema pulsava em um vermelho agressivo: Vitalidade: 3%. Cada batimento cardíaco soava como um estilhaço de vidro sendo forçado contra suas costelas. Atrás dele, o eco rítmico de botas de elite contra o granito da ala leste não era um treinamento. Era uma caçada.
Lívia não estava apenas irritada; ela estava purificando a Academia. A ordem de captura para o "anômalo" que violara o Andar 4 já circulava nos dispositivos de todos os monitores. Kael forçou as pernas, ignorando a dormência que subia pelos joelhos como um veneno. Ele precisava chegar ao dormitório, não para descansar, mas para apagar o rastro de mana que o denunciava como um farol no escuro.
O corredor principal estava selado por uma barreira de contenção azulada — um luxo de linhagem que ele não possuía. Kael não hesitou. Ele invocou o fragmento de memória que extraíra da Torre, sentindo o cérebro latejar com a carga de dados proibidos. Hack de Frequência: 12% de vitalidade restante convertida em sobreposição de assinatura. Ele forçou a memória contra o selo. O ar estalou, o brilho azul colapsou em faíscas, e as luzes da ala leste morreram em um curto-circuito ensurdecedor.
Ele não olhou para trás. Ao trancar a porta do dormitório, o Sistema emitiu um aviso seco: [ALERTA: A elite iniciou o rastreamento de assinatura. Tempo até a invasão: 15 minutos].
O descanso foi interrompido por uma batida metálica. Mestre Vane. O instrutor entrou sem esperar, o cheiro de ozônio e pergaminho antigo seguindo-o como uma aura de autoridade. Ele tamborilou os dedos sobre um relatório que expunha o salto estatístico de Kael. O papel parecia uma sentença.
— A Torre tem memória, Kael — Vane disse, os olhos fixos no vazio, não no aluno. — Ela registra rotas que não deveriam existir para alguém da sua linhagem. Você violou o selo do Andar 4. Por que?
Kael manteve os ombros caídos, a cabeça baixa, simulando a submissão que Vane esperava. — Eu apenas tentei sobreviver, Mestre. A rota… eu a encontrei por acidente. O medo me fez correr para onde eu não deveria.
Vane contornou a mesa, parando a centímetros de Kael. — O medo é uma desculpa para os fracos, mas você provou não ser tão fraco quanto a ficha indica. Não vou denunciá-lo agora, mas saiba: você é um experimento de alto risco. Se cair, ninguém lembrará seu nome.
Ao sair, Kael foi interceptado por Lívia nos jardins. Ela não carregava o desprezo habitual; seus olhos brilhavam com uma obsessão febril. Ela o encurralou contra uma coluna de pedra, a mão pronta para ativar um selo de imobilização.
— Eu vi o brilho residual, Kael. O Nível 4 não é lugar para um descartável. Como você ainda está de pé?
— Talvez você devesse se preocupar menos comigo e mais com o seu próprio ranking — Kael retrucou, sentindo o zumbido do Sistema.
— Vou sabotar seu próximo teste — ela sibilou, a voz trêmula de paranoia. — Vou expor cada centímetro da sua fraude.
O cerco estava fechado. A caçada da elite estava a minutos de invadir seu dormitório. Ele não tinha como vencer o teste público sem mais poder. Com 3% de vitalidade, cada batimento era uma agonia. Ele correu para o portal da Torre, confirmando o acesso ao Andar 5. O sistema exigiu o sacrifício final: 2,5% de vitalidade para estabilização.
O dreno foi instantâneo. Sua visão escureceu, mas a aura de poder ao seu redor disparou, uma chama esmeralda que forçou os caçadores que chegavam ao corredor a recuarem. Ele era agora um alvo de alta prioridade, um anômalo exposto. O Sistema brilhou em sua retina: [MISSÃO DE RISCO: O Andar 5 exige sacrifício de aliado ou perda total de recursos. Escolha seu custo].