A Escada que se Alarga
O ar no Andar 4 da Torre não era oxigênio; era uma lixa metálica que arranhava os pulmões de Kael. Com a vitalidade estagnada em 3%, cada respiração parecia um corte. Ele se arrastou até uma coluna de obsidiana, sentindo o peso da gravidade aumentada do piso. À sua frente, o Sistema projetou o veredito em letras escarlates:
Lei de Piso: Dreno de Mana Ativo. Regeneração: 0%. Tempo restante: 12:00.
O vazio em seu núcleo era absoluto. A Torre não apenas proibia o uso de habilidades; ela devorava a essência do usuário. Se Kael não estabilizasse sua assinatura, o Sistema colapsaria, deixando-o como uma casca vazia diante dos observadores da Academia. Ele não tinha margem para erro.
— Vamos, seu pedaço de sucata — sibilou, os dentes cerrados.
Ele acessou o fragmento de memória que coletara. Não era apenas um dado; era uma chave de acesso. Em vez de lutar contra o dreno, Kael usou sua vitalidade crítica como isca, injetando um pulso de energia instável no núcleo do andar. O Sistema, enganado pela assinatura de um 'usuário de linhagem pura', ajustou a lei por um milissegundo para compensar a flutuação. A regeneração saltou de zero para um fio tênue de mana. O preço foi uma pontada aguda no peito, mas o timer reiniciou. O brilho frio dos rankings no céu noturno da Torre parecia agora rastrear sua assinatura com uma intensidade predatória.
Antes que pudesse processar o ganho, uma sombra se projetou sobre o corredor. Lívia estava parada a poucos metros, os olhos semicerrados em uma mistura de desdém e pânico contido. Sua aura, impecavelmente controlada, brilhava com a superioridade de quem nunca precisou mendigar por energia.
— A rota selada não é para descartáveis, Kael — a voz dela cortou o silêncio com a precisão de uma lâmina. — Eu vi o brilho da sua assinatura. Como você superou o teste da Lei de Piso? Ninguém, nem mesmo os veteranos, consegue enganar o dreno do quarto andar.
Kael forçou um sorriso, embora sua visão estivesse escurecendo. Ele precisava de tempo. Se ela descobrisse o dreno de vitalidade, o denunciaria instantaneamente ao Mestre Vane. Ele deu um passo à frente, forçando sua aura a oscilar propositalmente, simulando uma instabilidade técnica que qualquer estudante de elite desprezaria.
— Talvez a rota não seja para os fortes, Lívia. Talvez ela só aceite quem não tem nada a perder — ele rebateu.
A arrogância de Lívia era sua maior arma; ela não conseguia conceber que um 'descartável' possuísse uma chave que ela, com toda a sua linhagem, ignorou. Ela recuou um passo, mas a obsessão em seus olhos era clara. Ela não ia embora; ela estava caçando.
Kael conseguiu escapar para o pátio da Academia, mas a paz durou pouco. Mestre Vane o aguardava nas sombras das arcadas, segurando um cristal de registro. O instrutor não olhava para o rosto de Kael, mas para a aura residual que o denunciava.
— Você violou a lei, Kael. A punição é o expurgo — Vane baixou o tom, mas a ameaça era real. — A Academia quer sua cabeça, mas a Torre... ela costuma ser mais criativa com quem rouba seus caminhos.
Antes que Kael pudesse responder, o Sistema emitiu um tique-taque ensurdecedor. Uma notificação em neon vermelho cobriu sua visão: Alerta de Exposição. A elite iniciou uma caçada ao anômalo. Rota de fuga: Andar 5 aberto.
O jogo havia mudado. Ele não estava mais apenas subindo uma escada; ele estava correndo de uma execução, e o próximo nível era a única saída.