O Andar Proibido
O ar no Andar Proibido não continha oxigênio; continha estática. Leo despencou sobre uma grade metálica que pulsava com uma luz azul anêmica, o impacto enviando ondas de dor pelos tendões exaustos. Mal o portal se fechara atrás dele, seu sistema rugiu na retina: [AVISO: Estabilização crítica necessária. Consumo de energia vital iniciado].
O aviso, antes azul, agora piscava em um vermelho agressivo. Leo sentiu um puxão gélido no peito, uma drenagem forçada que não era apenas cansaço, mas uma extração de sua essência para manter o sistema funcional. Ele apertou os dentes, a bile subindo pela garganta. O duelo contra Kael, horas atrás, já o deixara no limite; agora, o Andar Proibido devorava as sobras de sua vitalidade para decodificar uma rota que, para a Academia, não existia. Ele levantou a cabeça. O ambiente era uma memória fragmentada da Torre: pilares colossais flutuavam em ângulos impossíveis, envoltos em névoa de dados corrompidos. Não era um andar de combate; era o código-fonte, uma cicatriz de uma atualização esquecida. Cronômetro de Missão: 00:59:59.
Antes que pudesse se erguer, o som de metal contra metal ecoou. Três vultos emergiram das sombras, imitando a postura de combate dos veteranos da Academia com precisão desumana. Eram Guardiões de Memória — projeções de elite configuradas para punir intrusos.
— Identificação de anomalia — a voz de um dos guardiões era um sintetizador distorcido. — Protocolo de expurgo iniciado.
O primeiro guardião avançou, uma lâmina de energia brilhando em um arco perfeito. Leo não tentou bloquear; seu nível atual não suportaria o impacto. Ele inclinou o corpo, deixando a lâmina passar a centímetros de seu rosto enquanto o sistema sublinhava uma falha crítica na sequência do oponente: um atraso de milissegundos no giro do pulso. Leo girou, usando o momento do guardião para desferir um golpe preciso no ponto de junção do ombro da projeção. O sistema vibrou, convertendo a resistência do guardião em dados brutos. O ganho de tier não veio como uma luz gloriosa, mas como uma injeção de adrenalina dolorosa, forçando seus músculos a se adaptarem à carga de energia. Ele derrubou o segundo guardião, mas o custo foi imediato: [Nível de Estabilização: 42%. Risco de falência orgânica].
Ele correu para o ponto de extração, onde uma fenda de luz azulada tremeluzia. Mas, ao se aproximar, o portal se fechou com um estalo metálico. Uma barreira institucional, um padrão de rede da Academia que ele reconheceria em qualquer lugar, pulsava em um vermelho opressor. O Diretor Vane não estava ali, mas sua assinatura digital selava o caminho de volta. Leo socou a barreira, o impacto enviando uma descarga de dor que fez o sistema soltar avisos de erro em letras escarlates: [AVISO: Sobrecarga de Estabilização em 88%. Risco de deleção de sistema iminente].
— Tão longe de casa, Leo? — A voz era metálica, desprovida de calor humano.
Leo girou. Das sombras de uma coluna de obsidiana, surgiu o Limpador. Não era um estudante, mas uma construção automatizada da Academia, projetada para apagar anomalias. O Limpador não tinha rosto, apenas uma lente ótica que brilhava com a mesma luz da barreira.
Leo percebeu o erro fatal: o Limpador não estava sozinho. Atrás da unidade, a própria estrutura da Torre começou a se contorcer, e algo muito maior, algo que não pertencia à simulação, começou a se materializar nas frestas da realidade. A Academia não estava apenas tentando detê-lo; eles haviam aberto uma porta que não sabiam como fechar. A saída estava selada, e algo estava caçando-o do outro lado da barreira.