O Custo do Primeiro Salto
A aura de Leo não era apenas um sinal de progresso; era uma ofensa visual aos corredores impecáveis da Academia. Enquanto ele caminhava em direção ao dormitório, a luz azulada e instável de seu Tier 1 crepitava como eletricidade estática, desprendendo-se de seus ombros em faíscas que faziam os outros alunos se afastarem instintivamente. O sistema, ainda tentando calibrar a carga brutal que ele havia extraído da Rota do Observador, pulsava em sua mente com uma frequência dolorosa.
— Ei, escória! — A voz de um veterano, um aluno de terceiro ano com o brasão prateado de Tier 3 cravado no peito, cortou o silêncio. — Que tipo de truque sujo você usou para subir de nível da noite para o dia? Sua aura fede a erro de sistema.
Leo parou, sentindo o suor frio escorrer por sua coluna. O veterano bloqueava o caminho, cercado por dois comparsas. O sistema de Leo disparou um alerta vermelho em sua retina: [Divergência de Tier detectada. Risco de exposição: Iminente. Ação necessária: Estabilização forçada ou perda de privilégios.] Leo forçou uma máscara de indiferença, mesmo enquanto sua vitalidade era drenada para mascarar a anomalia. Ele não podia lutar aqui; não sem revelar que sua fonte de poder era proibida.
No refeitório, o tribunal de vidro e aço onde o status social era servido em bandejas de metal, a pressão escalou. Sofia surgiu entre as mesas com a precisão de um predador. Ela parou diante de Leo, sua presença imaculada projetando uma sombra fria. Atrás dela, veteranos de Tier 2 observavam, prontos para intervir caso a "anomalia" tentasse algo imprudente.
— O sistema da Academia está dando erro por sua causa, Leo — disse Sofia, a voz carregada de um desdém polido. — Ninguém salta de patamar da noite para o dia sem trapacear. O Diretor Vane não tolera falhas na hierarquia, e menos ainda erros técnicos que se acham prodígios.
Leo sentiu uma pontada aguda nas têmporas. O Sistema Quebrado exigia seu preço: uma exaustão física que parecia drenar sua medula óssea. Ele manteve as mãos firmes sobre a mesa.
— O sistema não erra, Sofia. Talvez a Academia apenas não saiba ler os dados que não quer ver — respondeu Leo, forçando um sorriso que sua exaustão quase desfez.
Sofia não recuou. Ela exigiu um duelo público, uma purga social para restaurar a ordem. Leo aceitou, sabendo que era a única forma de validar seu Tier diante da elite.
De volta ao dormitório, o quarto vibrava com um zumbido elétrico. O sistema exigia um sacrifício: energia vital para calibração ou o colapso total. Leo pressionou a palma da mão contra o painel de interface, forçando uma transferência direta de suas reservas. Uma náusea violenta o atingiu, mas o sistema estabilizou para um tom âmbar. O ganho estava consolidado, mas a um custo que ele não poderia repetir.
O chamado do Diretor Vane veio logo em seguida. O escritório cheirava a ozônio e polimento caro. Vane não parecia furioso; parecia entediado, como alguém que se prepara para descartar uma peça defeituosa.
— Você tem uma habilidade peculiar para destruir simuladores, Leo — Vane disse, observando os gráficos de energia. — O Tier 1 que você exibiu é estatisticamente impossível. Sofia solicitou o duelo. Eu aceitei. Se você perder, ou se o sistema for detectado como uma falha, ele será deletado permanentemente.
Leo saiu do escritório sentindo o peso do ultimato. O corredor parecia mais longo, a pressão de ser um azarão transformando-se em uma caçada institucional. Ele olhou para o próprio pulso, onde a interface projetava a contagem regressiva. Um novo cronômetro brilhava em sua retina, pulsando em vermelho: 24 horas para o duelo público. O sistema de Leo, agora ciente da ameaça, começou a recalibrar, revelando no horizonte da Torre um novo andar proibido — uma rota que apenas sua anomalia poderia abrir, mas que exigia uma vitória que parecia impossível.