O Teto Superior
O ar no Saguão de Acesso não era apenas rarefeito; ele estalava com a estática de um sistema em colapso. Kael sentia a frequência vibrar através de suas cicatrizes, que queimavam em um azul-elétrico contra a penumbra do corredor. O cronômetro acima do portal marcava 58 segundos. Não era uma sugestão. Era o tempo que restava antes que a Torre deletasse o setor — e ele junto.
À frente, a elite da Seita do Sol Ascendente formava uma barreira, auras agressivas bloqueando o caminho. O Mestre Vane observava de longe, seus olhos cansados refletindo a urgência histórica daquele confronto.
— Você não passa, Kael — sibilou um dos guardas, a mão sobre o punho da espada imbuída. — O sistema não autoriza a entrada de um coletor de sucata no andar superior. É uma violação das leis da Torre.
Kael não parou. O peso do Fragmento de Memória em seu bolso pulsava em sincronia com seu batimento cardíaco. Ele não era mais o coletor de dívidas que subia degraus por migalhas; ele era a própria correção que o sistema tentava purgar. Ele ergueu o braço direito, as cicatrizes brilhando com a autoridade de um código-fonte esquecido. Quando ele tocou a superfície do portão, o ar ao redor dos guardas tornou-se denso e estático. O portal se rompeu com o som de metal retorcido e a estática de um sistema colapsando sobre si mesmo.
Kael atravessou. O que encontrou não foi o salão dourado que a propaganda prometia, mas um vazio industrial. O Andar Superior era uma réplica árida do mundo real, composta inteiramente por eixos de transmissão, dutos de ventilação e servidores expostos que zumbiam em uma frequência insuportável. [ERRO: INTROMISSÃO DE AGENTE NÃO AUTORIZADO. PROTOCOLO DE DELEÇÃO ATIVADO: 60 SEGUNDOS].
Lívia emergiu das sombras do portal, a respiração entrecortada e o traje de elite em farrapos. Ao ver Kael, ela não hesitou; uma lâmina de luz pura se formou em sua mão.
— Você não passa de um erro, Kael! — ela gritou, a voz ecoando pelas paredes de vidro que revelavam a engrenagem industrial da Torre.
Kael não precisou revidar. O sistema, sob seu comando parcial através do Fragmento, reagiu à intrusão dela. O chão sob os pés de Lívia começou a se dissolver em pixels negros, a purga sistêmica tratando a prodigiosa Lívia como um código corrompido. Ela desapareceu em um grito abafado antes que pudesse completar o ataque.
Sozinho no Terminal Central, Kael conectou suas mãos às interfaces de comando. A dor das cicatrizes era lancinante, um preço alto pela autoridade que ele agora exercia.
— Kael, o protocolo de purga está se expandindo! — a voz de Vane ecoava, distorcida. — Se não estabilizar o núcleo, a estrutura vai colapsar sobre nós. Eles querem apagar a prova de que a Torre é uma prisão.
Kael cerrou os dentes. O cronômetro marcava 42 segundos. Ele sacrificou a interface de administração secundária, sua última proteção, para injetar o código de override diretamente no coração do sistema. O Terminal Central brilhou em um azul violento. Ele assumiu o controle, mas, ao ver a extensão do sistema, o horror o atingiu: a Torre era apenas a primeira camada. Enquanto o núcleo se estabilizava, um novo sinal, vindo de fora da Torre, começou a pulsar. A verdadeira ameaça externa acabara de iniciar o protocolo de reset, e ele estava apenas começando a entender o tamanho da gaiola.