O Preço da Sombra
O alarme ecoava pelos dutos do Setor de Sucata, um ganido metálico que vibrava nos ossos de Kael. Na palma de sua mão, o fragmento de memória pulsava como um sol frio, vazando uma radiação térmica que os sensores da Torre rastreavam com precisão cirúrgica. Drones de purga zumbiam lá fora, vespas famintas varrendo o corredor em busca de qualquer anomalia.
Kael não tinha margem. Ele conectou o hack de sobrecarga à interface do fragmento. O sistema tremeluziu, e com um comando mental brutal, ele forçou a Torre a ler a radiação como um erro de loop. A assinatura térmica desapareceu, envolta em uma sombra digital. Silêncio. Mas a paz era uma mentira; o mapa tático em sua retina brilhava com ícones vermelhos. A elite da Seita do Sol Ascendente não estava apenas patrulhando; eles estavam fechando o cerco.
Ele deslizou para o labirinto de tubulações industriais, o cheiro de ozônio queimado marcando o ar. Três assassinos da Seita surgiram das sombras, mantos dourados vibrando com a energia de rastreamento ativada.
— O alvo não tem nível para resistência — sibilou o líder, aproximando-se com a arrogância de quem caça um rato.
Kael não correu. Ele mergulhou atrás de um console industrial, seus dedos calejados dançando sobre as válvulas de pressão. Ele não precisava lutar; precisava que a Torre o fizesse. Ao girar a alavanca principal, o vapor escaldante sibilou, camuflando sua assinatura térmica. Ele hackeou a classificação da área, forçando o sistema a redefinir os mercenários como 'intrusos não autorizados'. O painel brilhou em um vermelho punitivo. O ar tornou-se denso, eletrificado. O sistema punitivo da Torre reagiu instantaneamente: garras hidráulicas desceram do teto, empalando o primeiro mercenário antes que ele pudesse sacar a lâmina. Kael viu a chance e escapou pelo duto de ventilação, deixando para trás o caos de uma emboscada que ele nem precisou tocar.
Escondido em um nicho de manutenção, ele decodificou os dados capturados. O comunicador chiou com a voz de Mestre Vane.
— Você tocou no núcleo, Kael. O que encontrou?
— A planta não é um mapa, Vane. É uma fatura — Kael respondeu, a voz seca. — O sistema não deleta rotas por erro. Ele as limpa para alimentar a ascensão da elite. Cada nível superior exige combustível humano. Lívia e os outros... eles não são prodígios. São beneficiários de um mecanismo de drenagem.
O silêncio de Vane foi mais pesado que a própria Torre.
— Se você vazar isso, a Seita enviará a guarda pretoriana. Você será apagado antes que o público entenda o conceito.
Kael sentiu o peso do fragmento contra a costela. Ele não tinha mais volta. Ele acessou o terminal público do Corredor de Transição, injetando um código de corrupção que forjou uma 'rota de acesso de elite' no setor oposto. Enquanto os assassinos se moviam para a mentira, Kael observava Lívia de longe. Ela estava no patamar superior, monitorando o ranking que agora o posicionava como uma anomalia perigosa. Ela tocou o pulso, ativando uma notificação global. O ranking vibrou. A recompensa por sua cabeça dobrou.
Kael sorriu, uma expressão desprovida de qualquer humor. Ele havia se tornado o centro de uma guerra de influência que ele mesmo desenhara. Mas, ao olhar para o visor do sistema, o horror se cristalizou: os mercenários da seita haviam ignorado sua trilha falsa. Eles não buscavam o fragmento pelo sinal térmico; eles estavam usando uma frequência de ressonância que só respondia à assinatura biológica do próprio Kael. O fragmento não era apenas um farol; era uma sentença de morte que ele carregava no peito. E, atrás dele, a purga sistêmica começava a contagem regressiva final.