A Primeira Prova de Fogo
O ar no escritório de advocacia, no vigésimo andar, parecia rarefeito, saturado pelo cheiro de café frio e pelo peso do papel que Beatriz acabara de assinar. A cláusula sete, que exigia noventa dias de residência compartilhada, não era apenas uma exigência contratual; era um cerco. Em quarenta e oito horas, sua consultoria seria liquidada pela auditoria se ela não apresentasse a fachada de estabilidade que Ricardo oferecia. O preço era sua autonomia; a garantia, a sobrevivência financeira necessária para manter Leo fora da mira da escassez.
Ricardo estava parado diante da janela, observando o tráfego caótico de São Paulo. Ele não se virou, mas sua presença exercia uma pressão gravitacional que Beatriz tentava, em vão, ignorar.
— A mudança começa amanhã — ele disse, a voz desprovida de calor, carregada de uma autoridade que exigia obediência. — Meus assessores estão finalizando o comunicado. Não quero falhas, Beatriz. Sua vida privada é, a partir de agora, um ativo da minha imagem pública.
Beatriz sentiu o estômago revirar. "Ativo". Ela era apenas uma transação para um homem que ela tentava esquecer desde que o viu pela última vez, anos atrás. Ela se levantou, a postura impecável, escondendo o tremor das mãos sob a pasta de couro.
Ao sair do prédio, o estacionamento parecia uma armadilha. Beatriz mal deu três passos antes de ser cegada por um clarão intermitente. Flashs. O som metálico de obturadores disparando em sequência, como tiros em um campo de batalha privado. Repórteres surgiram de trás dos pilares, bloqueando sua saída.
— Beatriz, é verdade sobre a fusão com o grupo de Ricardo? Como uma consultoria de nicho conseguiu tal contrato? — um deles gritou, a lente da câmera a centímetros do seu rosto.
O nome dela, cravado na boca daquelas pessoas como um pedaço de carne, fez suas mãos tremerem. Alguém vazara o noivado de dentro da empresa. Antes que ela pudesse formular uma resposta que não entregasse seu pânico, uma presença densa contornou seu lado esquerdo. O perfume amadeirado de Ricardo — sândalo e o frio metálico de uma lâmina — envolveu-a como um casulo.
Ricardo não disse uma palavra aos repórteres. Ele apenas posicionou seu corpo à frente dela, bloqueando a visão das lentes com a imponência de seus ombros largos. Ele não pediu licença; ele ocupou o espaço. Com um gesto preciso, ele envolveu a cintura de Beatriz, puxando-a para perto. A firmeza de seu toque não era um convite, era uma demonstração de posse que calou a imprensa momentaneamente.
— O comunicado será emitido no horário previsto — Ricardo declarou, a voz gelada, cortando o burburinho. — Qualquer tentativa de invasão de privacidade será tratada como litigância de má-fé pelo nosso departamento jurídico. Abram caminho.
Ele a conduziu até o carro, a porta se fechando com um baque surdo que isolou o mundo exterior. O silêncio dentro do veículo era carregado, uma presença física que pressionava contra o estofado de couro. Ricardo mantinha as mãos no volante, os nós dos dedos brancos de tensão.
— Você tremeu quando aquele fotógrafo chegou perto demais — Ricardo comentou, sem desviar os olhos da estrada. — Não parece o comportamento de alguém que lida com auditorias corporativas diariamente.
Beatriz tentou endireitar a postura, sentindo o peso da cláusula de residência que começaria em breve. O perigo não era apenas a perda da empresa; era o risco de que, sob o mesmo teto, ele notasse a semelhança no olhar de seu filho, a mesma curva no maxilar que Ricardo via todos os dias no espelho.
— Minha consultoria é um negócio, Ricardo. Minha vida privada é outra coisa. Agradeço a proteção, mas não confunda o contrato com intimidade.
Ricardo soltou uma risada seca, sem humor. Ele virou o rosto levemente, seus olhos escuros fixando-se nela com uma intensidade que parecia despir suas defesas. Por um segundo, Beatriz sentiu que ele via através de cada mentira. Ele estreitou os olhos, reconhecendo algo familiar na forma como ela desviava o olhar, uma cadência no seu medo que ele já tinha visto antes, em um passado que ele tentara enterrar. Ele não conseguia nomear o que era, mas a conexão era elétrica e perturbadora.
Ao chegar em casa, o apartamento parecia um refúgio, mas Beatriz encontrou um envelope pardo sobre a mesa. Não havia remetente. Dentro, fotografias de seu filho, tiradas de longe, e um bilhete curto: “O noivado é uma bela fachada, Beatriz. Mas os segredos que você enterrou não aceitam o silêncio. Se a verdade não for revelada no jantar de gala, eu mesmo me encarrego de apresentá-la ao seu noivo.”
O contrato, que deveria ser seu escudo, tornara-se a armadilha perfeita. O chantagista não queria dinheiro; ele queria a destruição de tudo o que ela construíra, exatamente no palco que Ricardo acabara de montar para ela.