O Contrato de Vidro
O ar no 22º andar do Edifício Faria Lima era rarefeito, carregado com o cheiro de café expresso e o peso de uma sentença iminente. Beatriz mantinha as mãos espalmadas sobre a mesa de mogno, sentindo a textura fria da madeira contra a pele. À sua frente, os dois auditores da firma não buscavam apenas erros contábeis; eles buscavam a sua ruína.
— A inconsistência no fluxo de caixa dos últimos três anos é, no mínimo, suspeita, Sra. Valente — o auditor mais velho, cujos óculos de aro fino pareciam lâminas, deslizou uma pasta sobre o tampo polido. — Se isso chegar à Receita, sua consultoria será liquidada em quarenta e oito horas. E não sobrará nada para sua vida pessoal. O mercado não perdoa amadores.
Beatriz sentiu o sangue gelar, mas não permitiu que o pânico chegasse ao seu rosto. Ela era uma mulher sem sobrenome de peso, sem um protetor para afastar os abutres, e aquela era a sua maior fraqueza. Ela respirou fundo, forçando a calma que era sua única armadura. Sua dignidade era o que a mantinha de pé, mesmo que o chão sob seus pés parecesse ceder.
— Não há irregularidade — disse ela, a voz firme, embora a garganta doesse. — Há apenas uma estrutura de custos que vocês não conseguem compreender sem acesso aos contratos confidenciais que não lhes autorizei. O sigilo é o ativo mais valioso da minha empresa.
— Não precisamos de autorização quando temos o poder de encerrar o jogo — o auditor rebateu. Antes que pudesse continuar, a porta do escritório se abriu com uma autoridade que fez o ar na sala mudar.
Beatriz foi escoltada não para a saída, mas para o quadragésimo andar de uma torre de vidro em Pinheiros. O escritório de Ricardo era um monumento à austeridade, um santuário de poder absoluto. O advogado da firma, Montenegro, tamborilava os dedos sobre uma pasta de couro, sem sequer olhar para ela.
— A auditoria não vai esperar, Beatriz — disse Montenegro, sem rodeios. — A falha no balanço é um convite para uma liquidação forçada. A menos que haja um aporte de capital ou uma mudança imediata na sua imagem pública para atrair novos investidores, a senhora estará fora do mercado em dois dias.
Beatriz sentiu o estômago revirar. Ela não pedira aquele encontro para ouvir uma sentença, mas para discutir soluções. Antes que pudesse articular uma defesa, a porta de carvalho pesado se abriu. Ricardo entrou. A presença dele era um fenômeno físico; ele preenchia o ambiente com uma autoridade que parecia desequilibrar o oxigênio. Ele não a olhou de imediato, focando-se primeiro em Montenegro.
— O aporte está condicionado — disse Ricardo, sua voz grave cortando o silêncio. Ele finalmente virou-se para Beatriz. Seus olhos escuros percorreram o rosto dela com uma curiosidade fria, um reconhecimento que não se completava. — O mercado não confia em consultores solitários. Eles precisam de uma narrativa, de uma estabilidade que você não possui. Eu ofereço o nome, a estrutura e a proteção contra os abutres que cercam sua empresa. Em troca, você assume o papel de minha noiva.
Beatriz sentiu o impacto da proposta como um golpe físico. O homem que ela abandonara anos atrás, o homem cujo filho ela criava em segredo, agora oferecia a salvação que destruiria sua privacidade.
— Cláusula sete. Residência compartilhada por noventa dias. Não é negociável — Ricardo disse, aproximando-se da mesa. A caneta Montblanc girava devagar entre seus dedos, um tique de impaciência calculada.
— Meu filho tem escola, rotina. Não vou arrastá-lo para a sua vida por causa de um teatro para investidores — Beatriz disparou, a voz trêmula, mas desafiadora.
Ricardo inclinou-se, o movimento fazendo a luz do lustre refletir no relógio de aço escovado. — O filho fica na casa dele. Você, não. Se quiser salvar a consultoria, o pacote inclui você dentro do meu espaço.
Ela olhou para o contrato. A tinta preta no papel parecia uma sentença de prisão. Se ela assinasse, estaria sob o mesmo teto que ele. Se não assinasse, perderia tudo o que construíra para garantir o futuro do menino. Beatriz pegou a caneta. Suas mãos não tremiam mais; a necessidade de proteção superara o medo da exposição. Ela assinou. A assinatura no contrato não era apenas um negócio; era o selo de uma sentença que Beatriz não podia evitar. Ricardo a observou com uma intensidade que ia além do profissional. Ele reconheceu algo, um traço, uma sombra, mas não conseguiu nomear o quê.