Sombras da Família
A porta de carvalho do escritório do falecido patriarca cedeu com um gemido metálico, mas não foi o peso da madeira que quase derrubou Arthur. Foi o bafo de mofo e cinzas. Ele entrou, ignorando a silhueta de Beatriz na penumbra do corredor. O escritório era um mausoléu de poder estagnado; a poeira dançava nos feixes de luz como fantasmas de contratos desfeitos. Arthur não hesitou. Caminhou até a escrivaninha, as mãos firmes, apesar do tremor que subia por seus antebraços. O cofre embutido na parede resistia, um monólito de aço que exigia a senha de um homem que ele jurara esquecer. Ele girou o dial, os dedos calejados por anos de guerra encontrando o ritmo exato — uma dança de cliques precisos. Quando a trava cedeu, o som ecoou como um disparo.
Dentro, apenas uma pasta. Ele a puxou, a respiração presa enquanto folheava o papel amarelado. Seus olhos pararam na última página. O sangue em suas veias gelou. A assinatura na base do documento não pertencia a um rival corporativo ou a um general inimigo; pertencia ao homem que o criara, o tio que herdara o império enquanto Arthur definhava no front. O papel tremia entre seus dedos. Não fora uma falência técnica, nem o mercado que devorara seu pai. Fora um expurgo planejado. Lá fora, Beatriz bateu na porta, um som seco que o trouxe de volta à realidade.
— Arthur? O leiloeiro está esperando. Viana está lá fora, tentando reunir o conselho para uma última manobra de desespero — ela disse, a voz firme, mas com uma ponta de hesitação ao notar o olhar frio dele. Ela entrou, parando ao ver a pasta aberta. — Por que você está olhando para esses papéis como se fossem uma sentença de morte?
Arthur estendeu o documento. Seus olhos fixos na parede oposta, onde o retrato de seu pai parecia julgá-lo.
— A traição nunca foi apenas de Viana, Beatriz. Ele foi a mão que empurrou, mas a porta foi aberta por dentro. Alguém da nossa própria casa entregou os códigos de acesso ao cofre de licitações. Alguém que conhecia cada falha no nosso sistema de defesa.
Beatriz leu o documento, o rosto empalidecendo conforme a gravidade da revelação se consolidava. O silêncio no escritório tornou-se opressivo. Ela, que antes via a luta de Arthur como uma causa perdida, percebeu agora que a sobrevivência do 'Legado' não dependia apenas de derrotar Viana, mas de purgar o ninho de víboras que habitava o próprio sangue da família. Ela selou o pacto com um aceno quase imperceptível. O traidor seria a isca perfeita.
O salão de eventos do Clube Municipal fervilhava com a desintegração pública de Ricardo Viana. O ar estava pesado, saturado pelo perfume caro e pelo silêncio nervoso de quem, até ontem, jurava lealdade ao magnata. Arthur caminhava pelo centro do salão, sua presença sendo um lembrete vivo de que a hierarquia da cidade havia mudado de mãos sem aviso prévio.
— Arthur, que surpresa vê-lo fora da cozinha do Legado. Perdeu-se no caminho para a dispensa? — A voz era de Otávio, um protegido do Conselho, tentando emular o desprezo de Viana enquanto ajustava nervosamente o colarinho. Ele bloqueou o caminho de Arthur, cercando-o com dois seguranças.
Arthur parou. Não havia raiva, apenas a frieza de quem já conhecia o fim daquela peça teatral.
— O Legado não é mais uma cozinha, Otávio. É o lugar onde os contratos que sustentam seu estilo de vida estão sendo revisados — respondeu Arthur, com a voz baixa o suficiente para forçar os presentes a se inclinarem. Ele sacou um envelope, não o que continha a traição familiar, mas o que detalhava as fraudes de Otávio. — Você acredita que Viana ainda pode protegê-lo? Ele não consegue nem proteger o próprio patrimônio. E você, Otávio, é apenas o próximo na lista de descartes do Conselho.
O salão ficou em silêncio absoluto. A elite municipal observava, aterrorizada, enquanto Arthur desmantelava a arrogância de Otávio com uma única frase. O protegido empalideceu, seus seguranças recuando instintivamente. Arthur saiu do salão sem olhar para trás, sabendo que o caminho para o verdadeiro traidor dentro de sua casa estava agora aberto. A caçada havia mudado de alvo.