O Contra-Ataque da Elite
O silêncio no Legado não era de paz; era de vácuo. Beatriz encarava a despensa, cujas prateleiras de aço inoxidável, antes repletas de especiarias raras e cortes nobres, agora refletiam apenas a luz fria das luminárias. O telefone em sua mão vibrou pela quinta vez em dez minutos. Ela o atendeu, a voz trêmula de frustração contida.
— Não, eu não aceito essa desculpa. O contrato de fornecimento foi assinado há anos... Como assim, 'ordens superiores'? — Ela desligou, o som do aparelho batendo contra a bancada ecoando como um tiro no salão vazio. — Acabou, Arthur. A última distribuidora de carnes cancelou a entrega. Viana não está apenas tentando nos despejar; ele está nos asfixiando. Se não abrirmos para o jantar, a vitória no leilão terá sido um teatro inútil.
Arthur estava encostado na mesa de preparo, observando o movimento na rua através da vitrine. Ele não parecia um homem que acabara de perder sua cadeia de suprimentos. Sua postura era de quem aguardava o momento exato de uma engrenagem se encaixar.
— Viana é previsível — disse ele, a voz baixa, desprovida de qualquer pânico. — Ele acredita que o mercado municipal é uma extensão do seu escritório. Ele esqueceu, porém, que o poder real não reside apenas em quem tem dinheiro, mas em quem detém os contratos de exclusividade que ele mesmo ajudou a redigir para sufocar a concorrência.
O sino da porta tocou. Ricardo Viana entrou, acompanhado por dois assessores que carregavam pastas de couro. Ele caminhou até o centro do salão, sorrindo para a escuridão das mesas vazias, saboreando a humilhação que ele mesmo orquestrara.
— Tão elegante, este lugar — Viana projetou a voz, garantindo que os pedestres lá fora ouvissem. — Uma pena que a cozinha tenha morrido junto com a linhagem da família. Ouvi dizer que hoje o menu é apenas poeira e arrependimento. Por que não fecha as portas, Arthur? Evitaria o vexame de ser despejado à força na próxima semana.
Beatriz deu um passo à frente, pronta para retrucar, mas Arthur a deteve com um gesto sutil. Ele caminhou até Viana, parando a poucos centímetros. Não havia raiva em seus olhos, apenas uma clareza cortante.
— Você se deu ao trabalho de vir pessoalmente, Viana? — Arthur retirou um documento selado do bolso interno do paletó. — O bloqueio de suprimentos foi um toque clássico. Mas você cometeu um erro de amador: a distribuidora que você usa para coagir o mercado deve milhões em multas contratuais que eu comprei ontem à noite. A partir de agora, eles não respondem mais a você. Eles respondem ao Legado.
O sorriso de Viana vacilou. Lá fora, um caminhão de carga, ostentando o selo da distribuidora que ele considerava sua, estacionou na entrada. O motorista desceu, carregando caixas de ingredientes de luxo que o mercado local não via há meses.
— O jogo mudou — Arthur continuou, entregando o documento a Viana. — O bloqueio que você impôs agora é a minha exclusividade. O Legado não vai fechar. Ele vai se tornar o único lugar nesta cidade onde os seus aliados poderão comer, se quiserem manter seus próprios contratos.
Viana recuou, a máscara de magnata invencível rachando. Ele olhou para o caminhão, depois para Arthur, e percebeu que o terreno sob seus pés não era mais sólido. Com o restaurante operando em capacidade máxima, a elite da cidade, atraída pela audácia, começou a ocupar as mesas.
No auge do serviço, um homem de meia-idade, vestindo um terno impecável, aproximou-se de Arthur. Ele não trazia a arrogância de Viana, mas uma neutralidade gélida que indicava um poder muito mais profundo.
— O Legado tem um novo ritmo, Arthur — o conselheiro da prefeitura comentou, em voz baixa. — Viana foi imprudente. A ganância o tornou um passivo para quem realmente comanda esta cidade.
Ele deslizou um envelope lacrado sobre a mesa. Arthur sentiu o peso do papel. Ao olhar o conteúdo, percebeu que não eram apenas documentos de licitação; eram as provas que ligavam Viana diretamente ao Conselho Superior. A guerra não estava terminando; ela estava apenas começando, e agora, Arthur tinha a arma necessária para derrubar os donos da cidade.