A Queda do Peão
O restaurante L’Etoile não era um lugar para homens como Elias, o contador de Ricardo Sampaio. O ambiente, banhado em luz âmbar e o tilintar de cristais de alto padrão, servia apenas como um cenário de ostentação para o pânico que transpirava pelos poros do homem sentado na mesa do canto. Elias não comia; seus dedos, trêmulos, dançavam sobre a tela de um tablet de última geração. Ele tentava, com uma urgência quase animal, deletar registros de transações offshore que ligavam o Grupo Orion à liquidação forçada do Hospital Alencar. Cada segundo que passava era uma batida a menos no relógio de Sampaio, e Elias sabia que, para o seu patrão, testemunhas que não podiam ser compradas eram descartadas.
Arthur Viana aproximou-se sem pressa, o passo firme e silencioso. Ele não precisou falar. Quando parou ao lado da mesa, sua presença projetou uma sombra que pareceu drenar o oxigênio ao redor de Elias. O contador congelou, os olhos arregalados, o cursor parado sobre o botão de 'Limpeza Total'.
— O sistema de segurança da Orion é sofisticado, Elias — disse Arthur, a voz baixa, carregada de uma autoridade que não admitia contestação. — Mas você cometeu um erro de amador. Tentou apagar os rastros pelo servidor principal, em vez de isolar os nós de criptografia. Se você completar esse comando, o protocolo de autodestruição do sistema disparará um alerta direto para quem você mais teme. Posso garantir que eles não são tão pacientes quanto eu.
Elias soltou o tablet como se estivesse em brasa. Ele olhou para Arthur, buscando um resquício de piedade, mas encontrou apenas um vazio calculista. Arthur inclinou-se, o tom mudando para algo mais pessoal: — Sei onde sua família está, Elias. Sei que o colégio das crianças é pago com dinheiro que não vem da contabilidade oficial da Sampaio. Não estou aqui pelo seu sangue, estou aqui pela verdade. Entregue o acesso, ou garanto que a Orion cuidará de você antes que a polícia chegue.
O contador, derrotado pela própria covardia, empurrou o dispositivo sobre a toalha de linho. Sua vida como o peão de luxo de Sampaio havia acabado ali, entre o caviar e o medo.
*
No escritório improvisado de Arthur, Beatriz Alencar permanecia imóvel diante da mesa de carvalho. Seus dedos cravavam-se na borda da pasta de documentos. Seus olhos, antes carregados de desespero, agora refletiam uma confusão fria enquanto ela analisava as planilhas que Arthur acabara de desdobrar.
— Isso não faz sentido — a voz de Beatriz falhou. — A Orion era o principal investidor de expansão da UTI. Meu pai os recebia como salvadores. Por que eles destruíram o hospital por dentro?
Arthur observou a cidade através da vidraça, o silêncio pesando mais que qualquer explicação. Ele apontou para uma transferência datada de três dias antes do falecimento do pai dela.
— Eles não queriam salvar o hospital, Beatriz. Eles precisavam que o legado fosse liquidado para liberar o terreno para um projeto de infraestrutura logística. Seu pai descobriu a natureza da fachada. Ele não teve um ataque cardíaco. Ele foi silenciado por ordem direta de um executivo da Orion, executada pelo contador que acabamos de encurralar. Foi um assassinato encomendado.
Beatriz recuou, o rosto perdendo a cor. O choque foi substituído por uma rigidez nova, uma determinação que Arthur reconheceu. Ela não era mais a herdeira acuada; era uma mulher que acabara de descobrir que seu luto fora manipulado por monstros. Ela olhou para Arthur e, com um movimento firme, entregou-lhe a autoridade total sobre as estratégias de defesa do hospital. O pacto estava selado.
*
A cobertura de Ricardo Sampaio cheirava a charuto caro e desespero gelado. O magnata caminhava em círculos sobre o mármore, observando a tela do computador onde suas ações despencavam. O assistente de Sampaio, pálido, mantinha as mãos atrás das costas.
— Perdemos o contato, senhor. Ele foi interceptado. Parece que Arthur Viana não está apenas jogando. Ele está limpando a mesa.
Sampaio parou bruscamente. A paranoia transformava seus olhos em frestas. Ele percebeu que o rastro de dinheiro estava sendo usado como uma coleira. O Grupo Orion, seus patronos, já haviam enviado três mensagens gélidas. A paciência deles havia esgotado. Sampaio ordenou, com a voz embargada pelo pavor: — Se ele tem o contador, ele tem a lista completa. Encontre-o. Elimine qualquer testemunha. Não me importa o custo, apague o rastro antes que a auditoria chegue à prefeitura.
*
O ar no galpão industrial, nos arredores do porto, era denso com o cheiro de óleo e maresia. Arthur observava Elias, cujas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurar a pasta de couro.
— Sampaio não é o cérebro, Elias. Ele é o caixa — disse Arthur. — Me dê o nome do contato na Orion que autorizou a liquidação. Se você falar, a auditoria externa esquece o seu nome. Se não, você será o único culpado.
Elias engoliu em seco, inclinando-se para frente. — O homem que assina as ordens… é o…
Um som metálico, agudo e seco, ecoou pelo galpão. Antes que o nome fosse pronunciado, a cabeça de Elias estalou para trás. O contador tombou sobre a mesa, o sangue manchando os documentos que provariam a conspiração. Arthur não se moveu, seus olhos fixos na silhueta do atirador que desaparecia nas sombras. A Orion estava monitorando cada passo, e o jogo acabara de se tornar uma guerra aberta.